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Os oito membros da Comissão Dança da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) elegeram em reunião na noite do 11 de dezembro os premiados de 2017 em suas 7 categorias. 6 das categorias já haviam sido apresentadas na divulgação dos indicados do primeiro e do segundo semestre, e a elas junta-se o Grande Prêmio da Crítica.

 

GRANDE PRÊMIO DA CRÍTICA: Maria Helena Mazzetti e Aracy Evans, pela trajetória de formação de dança em São Paulo

 

ESPETÁCULO / ESTREIA : “Gira”, Grupo Corpo       

(Demais Indicados: “Chulos”, Dual Cena Contemporânea ; “Guarde-me”, Márcia Milhazes Companhia de Dança ; “Obrigado Por Vir”, Key Zetta & Cia. + Convidados ; “Peças Fáceis — Plataforma Sonorocoreográfica”, Grupo Pró-Posição ; “Riso”, key zetta e cia.)

 

ESPETÁCULO / NÃO ESTREIA: “Kuarup ou A Questão do Índio”, Ballet Stagium         

(Demais Indicados: “A Metamorfose”, Cia Carne Agonizante ; “Cacti”, Balé da Cidade de São Paulo ; “Entre Contenções”, Eduardo Fukushima ; “Novos Ventos”, Raça Cia de Dança ; “O Que Se Rouba”, Grupo Zumb.boys)

 

COREOGRAFIA / CRIAÇÃO“EU Por Detrás de MIM”, Concepção Coreográfica de Ana Bottosso, Companhia de Danças de Diadema          

(Demais Indicados: “Gira”, Coreografia de Rodrigo Pederneiras, Grupo Corpo ; “Monstra”, Direção de Elisabete Finger e Manuela Eichner ; “Para que o Céu Não Caia”, Criação de Lia Rodrigues, Lia Rodrigues Companhia de Danças ; “Primavera Fria”, Coreografia de Clébio Oliveira, São Paulo Companhia de Dança ; “1001 Platôs”, Direção Coreográfica de Maura Baiocchi, Taanteatro)

 

INTERPRETAÇÃOAna Paula Camargo e André Grippi, São Paulo Companhia de Dança, por “14’20””

(Demais Indicados: Beatriz Sano, por “Estudo de Ficção” ; Eduardo Fukushima, por “Oxóssi – com/para Denilto Gomes” ; Luis Arrieta, por “Os Corvos” ; Mariana Muniz, por “Fados e Outros Afins” ; Volmir Cordeiro, por “Céu”)

 

PRÊMIO TÉCNICO: Hideki Matsuka, pela Direção de Arte dos trabalhos de 2017 da key zetta e cia.

(Demais Indicados: Aline Santini, pelo Desenho de Luz de “Shine”, Cia. Perversos Polimorfos ; André Mehmari, pela Música de “H.U.L.D.A.”, Cisne Negro Cia. de Dança ; Jacqueline Motta, Fernanda Cavalcanti e José Ramos, Ensaiadores de “Cão Sem Plumas”, Companhia de Dança Deborah Colker ; Luis Gustavo Petri, pela Música de “Risco”, Balé da Cidade de São Paulo ; Metá Metá, pela Trilha Sonora de “Gira”, Grupo Corpo)

 

PROJETO / PROGRAMA / DIFUSÃO / MEMÓRIA: VIII Circuito Vozes do Corpo, Cia. Sansacroma

(Demais Indicados: ABCDança 2017, Associação Projeto Brasileiro de Dança ; Bienal Sesc de Dança 2017, Sesc ; Programação de Dança do Teatro Sérgio Cardoso, APAA / Secretaria do Estado da Cultura ; Ruth Rachou 90 Anos, Museu da Dança ; II Encontro de Mulheres Negras na Dança, Nave Gris Cia Cênica)

 

VOTARAM: Amanda Queirós, Ana Francisca Ponzio, Cássia Navas, Henrique Rochelle, Iara Biderman, Renata Xavier, Simone Alcântara e Yaskara Manzini

 

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Em reunião no dia 6 de novembro, a Comissão de Dança da APCA selecionou os indicados do segundo semestre de 2017 em seis das sete categorias que serão premiadas ao final do ano.

Indicados do segundo semestre, em ordem alfabética, por categoria:

 

ESPETÁCULO / ESTREIA

Chulos”, Dual Cena Contemporânea

Gira”, Grupo Corpo

Riso”, key zetta e cia.

 

ESPETÁCULO / NÃO ESTREIA

A Metamorfose”, Cia Carne Agonizante

Kuarup ou A Questão do Índio”, Ballet Stagium

O Que Se Rouba”, Grupo Zumb.boys

 

COREOGRAFIA / CRIAÇÃO

Gira”, Coreografia de Rodrigo Pederneiras, Grupo Corpo

Monstra”, Direção de Elisabete Finger e Manuela Eichner

1001 Platôs”, Direção Coreográfica de Maura Baiocchi, Taanteatro

 

INTERPRETAÇÃO

Beatriz Sano, por “Estudo de Ficção”

Eduardo Fukushima, por “Oxóssi – com/para Denilto Gomes

Volmir Cordeiro, por “Céu”

 

PRÊMIO TÉCNICO

Hideki Matsuka, pela Direção de Arte dos trabalhos de 2017 da key zetta e cia.

Jacqueline Motta, Fernanda Cavalcanti e José Ramos, Ensaiadores de “Cão Sem Plumas”, Companhia de Dança Deborah Colker

Metá Metá, pela Trilha Sonora de “Gira”, Grupo Corpo

 

PROJETO / PROGRAMA / DIFUSÃO / MEMÓRIA

Bienal Sesc de Dança 2017, Sesc

Ruth Rachou 90 Anos, Museu da Dança

II Encontro de Mulheres Negras na Dança, Nave Gris Cia Cênica

 

VOTARAM: Amanda Queirós, Ana Francisca Ponzio, Cássia Navas, Henrique Rochelle, Iara Biderman, Renata Xavier, Simone Alcântara e Yaskara Manzini

 

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A Comissão Dança da APCA divulga os indicados do primeiro semestre de 2017 em seis das categorias que serão premiadas ao final do ano, quando também será revelado o ganhador do Grande Prêmio da Crítica — para a qual não será publicada lista de indicações. Em novembro, serão apresentados os indicados selecionados ao longo do segundo semestre.

Indicados, em ordem alfabética, por categoria:

 

ESPETÁCULO / ESTREIA

Guarde-me”, Márcia Milhazes Companhia de Dança

Obrigado Por Vir”, Key Zetta & Cia. + Convidados

Peças Fáceis — Plataforma Sonorocoreográfica”, Grupo Pró-Posição

 

ESPETÁCULO / NÃO ESTREIA

Cacti, Balé da Cidade de São Paulo

Entre Contenções”, Eduardo Fukushima

Novos Ventos, Raça Cia de Dança

 

COREOGRAFIA / CRIAÇÃO

EU Por Detrás de MIM, Concepção Coreográfica de Ana Bottosso, Companhia de Danças de Diadema

Para que o Céu Não Caia, Criação de Lia Rodrigues, Lia Rodrigues Companhia de Danças

Primavera Fria, Coreografia de Clébio Oliveira, São Paulo Companhia de Dança

 

INTERPRETAÇÃO

Ana Paula Camargo e André Grippi, São Paulo Companhia de Dança, por “14’20””

Luis Arrieta, por “Os Corvos”

Mariana Muniz, por “Fados e Outros Afins”

 

PRÊMIO TÉCNICO

Aline Santini, pelo Desenho de Luz de “Shine”, Cia. Perversos Polimorfos

André Mehmari, pela Música de “H.U.L.D.A.”, Cisne Negro Cia. de Dança

Luis Gustavo Petri, pela Música de “Risco”, Balé da Cidade de São Paulo

 

PROJETO / PROGRAMA / DIFUSÃO / MEMÓRIA

ABCDança 2017, Associação Projeto Brasileiro de Dança

Programação de Dança do Teatro Sérgio Cardoso, APAA / Secretaria do Estado da Cultura

VIII Circuito Vozes do Corpo, Cia. Sansacroma

 

VOTARAM: Amanda Queirós, Ana Francisca Ponzio, Cássia Navas, Henrique Rochelle, Iara Biderman, Renata Xavier, Simone Alcântara e Yaskara Manzini

 

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Em 1973, a Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) incluiu a Dança na premiação do Troféu APCA, que reconhece anualmente os destaques de 12 áreas: além da Dança, Arquitetura, Artes Visuais, Cinema, Literatura, Música Erudita, Música Popular, Moda, Rádio, Teatro, Teatro Infantil e Televisão. Em 2015, a Dança se viu sem premiação, por problemas internos da comissão julgadora, e o evento quase se repetiu em 2016, quando os premiados de Dança não foram anunciados juntos das outras áreas.

A partir de uma iniciativa do presidente da APCA, José Henrique Fabre, a Comissão de Dança foi rearticulada e ampliada, se reunindo para uma reunião extraordinária no dia 19 de dezembro para votar os premiados da Dança em 10 Categorias. O número em si é significativo, porque cada área contempla apenas 7 Categorias por ano, a excessão tendo sido aberta a partir de um pedido da Comissão aceito pelo Presidente.

Outro número impressionante foi o tamanho da comissão, que reuniu 9 críticos e pesquisadores de dança: desde 2001 as comissões anuais contavam com apenas 3 ou 4 membros, em sua maioria. Antes dessa edição, o maior número de votantes foi 6, para os prêmios de 2012 e 2013. Em uma proposta de diálogo e de reconhecimento da grande produção em dança realizada e circulada por São Paulo, a Comissão de 2016 organizou uma lista de mais de 170 obras e projetos em dança apresentados ao longo do ano, e a partir da grande quantidade de possíveis premiados aferida, instaurou-se outra novidade: a apresentação de três indicados em cada uma das categorias, dentre os quais um sai vencedor. De costume, o Troféu APCA apresenta apenas os ganhadores de cada categoria, e essa lista, ainda que reduzida perto da notável produção, passa a contemplar uma maior variedade de obras, artistas e projetos da dança.

A possibilidade de 10 categorias de premiação, que também foram longamente debatidas pela comissão, resultou na inclusão de categorias como Espetáculo (Não Estreia), e Espaço de Difusão, além de trazer de volta um reconhecimento em Prêmio Técnico, para os criadores e realizadores de tantos aspectos normalmente removidos da premiação normal da APCA (a última vez em que um prêmio técnico foi concedido na dança foi em 2004).

Junto do anúncio dos indicados e ganhadores, a comissão fez uma apresentação dessa situação excepcional da premiação de 2016, mas já deixou marcado que para 2017 propõe manter a apresentação de indicados, e não apenas de ganhadores, inclusive avançando nas propostas de articulação, separando e divulgando as indicações em dois momentos, no primeiro e no segundo semestre, assim aumentando a visibilidade e a discussão sobre a dança que se faz e que passa por aqui, além de seu justo reconhecimento.

Alguns dos indicados e dos ganhadores do APCA 2016 em Dança já apareceram em textos críticos aqui no Da Quarta Parede, e estão linkados junto da lista completa, divulgada hoje, que segue abaixo.

GRANDE PRÊMIO DA CRÍTICA: Marilena Ansaldi. Demais Indicados: Ballet StagiumQuasar Cia. de Dança

ESPETÁCULO (ESTREIA): “Devolve 2 horas da minha vida” – Projeto Mov_oLA/Alex SoaresDemais Indicados: “Percursos Transitórios” – Zélia Monteiro/Núcleo de Improvisação ; “Procedimento 2 Para Lugar Nenhum” – Vera Sala

ESPETÁCULO (NÃO ESTREIA): “Dança Por Correio” – Grupo Zumb.boys. Demais Indicados: “Graxa” – Diogo Granato e Henrique Lima ; “Sociedade dos Improdutivos” – Cia. Sansacroma

COREOGRAFIA / CRIAÇÃO: “Rubedo” – Cia. de Dança Siameses/Mauricio de Oliveira. Demais Indicados: “Breve Compêndio para Pequenas Felicidades e Satisfações Diminutas” – Luiz Fernando Bongiovanni / Núcleo Mercearia de Ideias ; “Corpo Sentado” – Jussara Miller

INTERPRETAÇÃO: Zélia Monteiro, por “Percursos Transitórios”. Demais Indicados: Elenco do Ballet Stagium, por “O Canto da Minha Terra” ; Irupé Sarmiento e Samuel Kavalerski, por “Céu de Espelhos”

REVELAÇÃO: Grupo Fragmento Urbano. Demais Indicados: Bruno Gregório – “15 Minutos”, da “Mostra Dançographismus V” do Balé da Cidade de São Paulo ; Thiago Granato – “Trança”

ESPAÇO DE DIFUSÃO: Centro de Referência da Dança da Cidade de São Paulo (CRD). Demais Indicados: Centro Cultural São Paulo ; Museu da Dança

PRÊMIO TÉCNICO: Equipe Técnica do Teatro AlfaDemais Indicados: André Boll, pela luz de “Trança”, de Thiago Granato ; Hernandes de Oliveira, pela luz de “Percursos Transitórios”, de Zélia Monteiro

PROJETO / PROGRAMA: CCSP Semanas de Dança 2016 – Centro Cultural São Paulo. Demais Indicados: Instalação Wabi Sabi, com Dorothy Lenner ; Programação do Centro de Referência da Dança da Cidade de São Paulo (CRD)

MEMÓRIA: Ballet Stagium – 45 Anos. Demais Indicados: “Coreografia – O Desenho da Dança no Brasil” (Canal Arte 1 e Aiuê Produtora) ; Ocupação Herbert e Maria Duschenes (Itaú Cultural)

Votaram: Amanda Queirós, Ana Francisca Ponzio, Cássia Navas, Flávia Couto, Henrique Rochelle, Iara Biderman, Renata Xavier, Simone Alcântara e Yaskara Manzini

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De fevereiro a junho, a Oficina Cultural Oswald de Andrade apresenta a Ocupação Marta Soares, com uma retrospectiva de obras do repertório que dá ao público novo a oportunidade de conhecer, e ao público fiel a oportunidade de rever grandes momentos do percurso artístico e investigativo proposto pela bailarina e performer. Acumulando prêmios e reconhecimentos no conjunto dessa mostra e de sua obra, a Ocupação abriu com Vestígios, instalação coreográfica de 2010.

Em uma das salas da Oficina Cultural, transformada em galeria de arte, o chão e as paredes antigos e de madeira escura se chocam com duas estruturas grandiosas laterais que formam modernos painéis, nos quais são projetadas imagens de lugares variados, com sonoridades captadas que acompanham essa ambientação. No centro da sala, sobre uma plataforma elevada, soterrada por uma pequena montanha de areia, está Marta Soares, sendo lentamente revelada pela ação do vento de um ventilador ao pé da plataforma, que vai pouco a pouco empurrando a areia e  nos revelando mais de seu corpo, que não se mexe.

Não, não há movimento, apenas esse delicado procedimento arqueológico de escavação que nos revela a performer, acompanhado pela alteração da ambientação da sala, enquanto a areia é removida de cima dela, formando no chão, um pouco mais a frente, uma nova pilha, essa, bem regular e sem os desenhos da geografia do corpo da intérprete, nem das paisagens projetadas. Vez ou outra, somos tirados do lugar reflexivo forçado pela obra, quando outro alguém do público passa em nossa frente, ou na frente das telas: não há uma platéia, e o público pode se movimentar livremente pelo espaço para observar o processo de revelação e descobrimento que se constrói, constante e muito vagarosamente, a nossa frente.

Conforme a escavação revela o corpo, surgem na mente tópicos diversos de reflexão sobre a arte da dança, ainda que não haja exatamente dança nessa instalação. É difícil não pensar em como o movimento se prende nos corpos dos bailarinos, e pode se revelar (ou se esconder) por longos processos arqueológicos e arquitetônicos, em que estruturas são reveladas ou construídas para serem observadas. Para além disso, parece haver uma fundamental discussão acerca desses próprios processos e do acesso que a eles temos. Negar a dança enquanto movimento do corpo, e partir de uma pesquisa que, com o corpo parado, consegue produzir uma enorme quantidade de pensamento sobre o corpo na dança não é um feito pequeno.

Há a possibilidade de discutir a formação do intérprete e de como o corpo revela suas origens em traços às vezes encobertos, às vezes escancarados, e às vezes aguardando um deslize para se mostrar, tal qual a areia sobre a performer nos revela de modo irregular, ainda que constante, algumas partes do seu corpo. Dado momento, o público perde a noção do tempo e do espaço, se prendendo nesse sutil processo de descoberta, que não termina: a porta da sala é aberta e descobrimos que é a hora de sairmos. Não, ela não se mexeu. Não, a areia não foi totalmente removida. Não, não vemos seu rosto. Não, ela não levanta para agradecer. Saímos e, no caminho da rua, recebemos o programa do espetáculo.

Curioso formato, que valeria um questionamento fundamental: proposital ou acidental, essa entrega do programa de sala depois da obra já assistida? Independentemente, foi  uma ação funcional, que permitiu o contato com esses vestígios sem a pré-determinação do discurso. E discurso havia em abundância… Precisamos citar Heidegger, Agamben, Rolnik, mencionar a memória-ancestral pré-colonial, a reconexão com os aspectos monumental e sagrado, as cerimônias fúnebres dos sambaquis do litoral brasileiro…

Talvez fosse impossível apreciar a sutileza da obra se a leitura do programa fosse feita antes da apresentação. Talvez fosse impossível não franzir o cenho e erguer as sobrancelhas e se questionar onde, dentro daquela sala, estavam todas aquelas referências até grandiosas. Entre os reconhecimentos do espetáculo, uma menciona uma premiação por Pesquisa em Dança — não um reconhecimento pela instalação, mas um prêmio por pesquisa em dança. Dentro da estrutura proposta para essa performance, o “em dança” poderia ser questionado; já o “pesquisa”, dificilmente. Mas, mais importante, parece ser questionar os modos como a pesquisa se articula com seus resultados artísticos, e como os resultados comunicam — ou não — os conteúdos da laboriosa pesquisa desenvolvida.

O público poderia retornar no dia seguinte e assistir novamente a apresentação, dessa vez buscando os indícios, tentando escavar a obra procurando os vestígios dos sítios indígenas pré-históricos. Talvez, se desvelássemos algumas camadas, tal qual o vento fazia com a areia, encontrássemos respostas, fosse no corpo estático da performer, ou nas imagens projetadas, ou nos sons que ouvimos, ou na areia pesando sobre ela, ou no vento e na forma como ele molda o desenho do que podemos ver, ou talvez até no barulho do ventilador.

Mas se a obra fosse assistida dentro dessa perspectiva, talvez se perdesse a possibilidade poética de seu olhar, não como um sítio arqueológico de dado conteúdo transmissível e possível de ser recontado, mas enquanto um espaço estético de reflexão sobre o movimento e sobre a arte da dança. Em casa, eu confrontava a minha experiência de público, com a minha experiência de leitor dos “esclarecimentos” do programa. Sem solução. Seria esse elemento mais uma parte da performance? Teria ele sido colocado ali pra fazer o público questionar o que estamos dispostos a ver em uma obra e a encontrar nela, a partir de sugestão textual? Tratava-se de algo intensamente cerebral, ou de uma coisa profundamente sensível? Sem solução…

Sem conseguir me resolver quanto ao conjunto do que me fora apresentado, eu buscava teorias, e, de repente, me encontrava de frente com o próprio objeto artístico: ainda que o procedimento de escavação da obra, com o vento, formasse uma nova pilha de areia, essa até bastante regular (dada a constância inalterada do vento e da intérprete parada), pouco eu teria a ganhar tentando transformar o conhecimento sensível transmitido pela obra em conhecimento esquematizado e regularizado — no máximo, eu teria uma pilha de areia, nova e mais organizada que a anterior. Mas enquanto eu olhasse o corpo que se revelava, pensando sobre todas as questões do movimento, das histórias, dos sentimentos que são escondidos num corpo, e sutilmente revelados pelos artistas da dança, eu continuaria encontrando novas associações, e novos entendimentos. Procedimento justo: a escavação é apenas a primeira etapa da investigação. Seria o trabalho com os vestígios, e não o simples encontro deles, que poderia revelar respostas. Mas dentro dessa provocativa proposta, não havia a intenção de responder, e tal qual a areia, sendo ventada de cima do corpo para a nova montanha no chão, as questões e dúvidas que se formavam eram sutilmente ventadas.

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