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Arquivo mensal: dezembro 2017

O corpo nu enquanto plano de ação é o pretexto de “Bondages”, obra em que Marta Soares parte de uma série fotográfica de Hans Bellmer dos anos 1950, para proceder a uma sequência de amarrações de seu próprio corpo, exposto sobre uma mesa, e registrado, tal qual a fotografia, por instantes de iluminação.

Com a mesa em cena, entramos no âmbito de mais uma platform piece que remete a “Vestígios”, obra de 2010 da performer, mas sem o espetacular que preenche aquela. Aqui, assim como o corpo, a cena é nua e silenciosa, e seu procedimento é simples: um contínuo amarrar, registrar, desamarrar, e amarrar novamente, que vai moldando o próprio corpo, apresentado como se fosse escultura, como se fosse peça de museu, disponível à observação.

No todo, trata-se de um ensaio plástico: a(s) forma(s) do corpo são exploradas pelo ato de  dar forma(s) ao corpo. O fio de nylon usado cria novas dobras, novos vincos, para além daqueles que são naturais dos músculos e das articulações. Valorizam-se os contornos, numa estrutura em que não há acúmulos — os elementos são pouco reutilizados, e constantemente refeitos em novas estruturas, ainda que dentro de um aspecto contínuo e cíclico, favorecido pela iluminação de Aline Santini, que faz passar o tempo da obra como se fosse uma expansão do tempo do mundo, num contínuo crescimento e diminuição da luz principal, pautado por rápidos flashes de luz frontal, que congelam o corpo da intérprete no tempo, e o gravam na retina, como se fossem fotografia.

Há algo de muito específico nas performances de Marta Soares, que atrai quem se interessa por dança. Mesmo em uma proposta tão simples e despida como essa, o seu trabalho constantemente lida com as estruturas que organizam e possibilitam a existência da dança. Tempo, espaço, peso, fluxo e corpo se desconstroem e subvertem em seus trabalhos.

Restam limites, que ecoam velhas perguntas — de que precisamos para que se faça um espetáculo? Sua resposta parece se apoiar na espetacularidade inerente e inevitável da presença, mas lidando com ela de maneira bem mais interessante e inteligente que outros tantos artistas da performance: Soares não se faz objeto de observação, mas ponto de reflexão.

Desgostar de performance é algo até fácil: frequentemente, os performers parecem não se preocupar com o público, valorizando estéticas solipsistas em que aquilo que faz arte é o egoico “ser visto”. Porém, de forma muito sagaz, nos trabalhos de Marta Soares essa dinâmica é frequentemente invertida, e aquilo que faz arte é o “ver”.

Da mesma forma que o outro tipo de performance, este também demanda atenção e disponibilidade, esforço, paciência e reflexão de seu público. Mas ganhamos muito mais com estes trabalhos, porque mais do que um modus operandi, a observação ativa se torna uma verdadeira razão estética, e sua realização não se limita a nos dizer “eu mereço ser olhada”, mas aponta para aquilo que, às vezes de tão presente, pode nos passar despercebido. Assim, assistir a seus trabalhos é um constante processo de descoberta.

 

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Os oito membros da Comissão Dança da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) elegeram em reunião na noite do 11 de dezembro os premiados de 2017 em suas 7 categorias. 6 das categorias já haviam sido apresentadas na divulgação dos indicados do primeiro e do segundo semestre, e a elas junta-se o Grande Prêmio da Crítica.

 

GRANDE PRÊMIO DA CRÍTICA: Maria Helena Mazzetti e Aracy Evans, pela trajetória de formação de dança em São Paulo

 

ESPETÁCULO / ESTREIA : “Gira”, Grupo Corpo       

(Demais Indicados: “Chulos”, Dual Cena Contemporânea ; “Guarde-me”, Márcia Milhazes Companhia de Dança ; “Obrigado Por Vir”, Key Zetta & Cia. + Convidados ; “Peças Fáceis — Plataforma Sonorocoreográfica”, Grupo Pró-Posição ; “Riso”, key zetta e cia.)

 

ESPETÁCULO / NÃO ESTREIA: “Kuarup ou A Questão do Índio”, Ballet Stagium         

(Demais Indicados: “A Metamorfose”, Cia Carne Agonizante ; “Cacti”, Balé da Cidade de São Paulo ; “Entre Contenções”, Eduardo Fukushima ; “Novos Ventos”, Raça Cia de Dança ; “O Que Se Rouba”, Grupo Zumb.boys)

 

COREOGRAFIA / CRIAÇÃO“EU Por Detrás de MIM”, Concepção Coreográfica de Ana Bottosso, Companhia de Danças de Diadema          

(Demais Indicados: “Gira”, Coreografia de Rodrigo Pederneiras, Grupo Corpo ; “Monstra”, Direção de Elisabete Finger e Manuela Eichner ; “Para que o Céu Não Caia”, Criação de Lia Rodrigues, Lia Rodrigues Companhia de Danças ; “Primavera Fria”, Coreografia de Clébio Oliveira, São Paulo Companhia de Dança ; “1001 Platôs”, Direção Coreográfica de Maura Baiocchi, Taanteatro)

 

INTERPRETAÇÃOAna Paula Camargo e André Grippi, São Paulo Companhia de Dança, por “14’20””

(Demais Indicados: Beatriz Sano, por “Estudo de Ficção” ; Eduardo Fukushima, por “Oxóssi – com/para Denilto Gomes” ; Luis Arrieta, por “Os Corvos” ; Mariana Muniz, por “Fados e Outros Afins” ; Volmir Cordeiro, por “Céu”)

 

PRÊMIO TÉCNICO: Hideki Matsuka, pela Direção de Arte dos trabalhos de 2017 da key zetta e cia.

(Demais Indicados: Aline Santini, pelo Desenho de Luz de “Shine”, Cia. Perversos Polimorfos ; André Mehmari, pela Música de “H.U.L.D.A.”, Cisne Negro Cia. de Dança ; Jacqueline Motta, Fernanda Cavalcanti e José Ramos, Ensaiadores de “Cão Sem Plumas”, Companhia de Dança Deborah Colker ; Luis Gustavo Petri, pela Música de “Risco”, Balé da Cidade de São Paulo ; Metá Metá, pela Trilha Sonora de “Gira”, Grupo Corpo)

 

PROJETO / PROGRAMA / DIFUSÃO / MEMÓRIA: VIII Circuito Vozes do Corpo, Cia. Sansacroma

(Demais Indicados: ABCDança 2017, Associação Projeto Brasileiro de Dança ; Bienal Sesc de Dança 2017, Sesc ; Programação de Dança do Teatro Sérgio Cardoso, APAA / Secretaria do Estado da Cultura ; Ruth Rachou 90 Anos, Museu da Dança ; II Encontro de Mulheres Negras na Dança, Nave Gris Cia Cênica)

 

VOTARAM: Amanda Queirós, Ana Francisca Ponzio, Cássia Navas, Henrique Rochelle, Iara Biderman, Renata Xavier, Simone Alcântara e Yaskara Manzini

 

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No dia 6 de dezembro, a Cooperativa Paulista de Dança entregou o V Prêmio Denilto Gomes de Dança na sala cênica do Centro de Referência da Dança de São Paulo para os reconhecidos pela comissão composta por Ana Francisca Ponzio, Elaine Calux e Junior Guimarães, nas 14 categorias da premiação.

O Da Quarta Parede parabeniza os premiados, que seguem listados abaixo:


TRAJETÓRIA NA DANÇA
Luis Arrieta

PERSONALIDADE NA DANÇA
Angel Vianna

ELENCO
Allyson Amaral, Beatriz Sano, Carolina Minozzi, Cássio Inácio Bignardi, Eduardo Fukushima, Eliana de Santana, Júlia Rocha, Marco Xavier, Marina Massoli, Mauricio Florez, Rafael Anacleto, Renata Aspesi, Key Sawao, Ricardo Iazzetta e Toshi Tanaka pelo espetáculo Obrigado por Vir – Key Zetta & Cia

INTÉRPRETE
Andréia Nhur pelo espetáculo Peças FáceisGrupo Pro-posição

COREOGRAFIA
Plano Sequência/Take 2J.Gar.Cia de Dança

CRIAÇÃO EM DANÇA
Nufricar – Grupo Musicanoar

PERFORMANCE
No hay banda, é tudo playback – Grupo Vão

INTERVENÇÃO URBANA
Mané BonecoGrupo Zumb.Boys

AÇÃO DE DIFUSÃO EM DANÇA
Terça Aberta no Kasulo – Cia. Fragmento de Dança

PROJETO EM DANÇA
II Encontro Mulheres Negras na Dança – Nave Gris

REVELAÇÃO DE AÇÃO CONTINUADA EM DANÇA
Cia. Diversidança

DESENHO DE LUZ
Aline Santini pelo espetáculo Shine – Cia. Perversos Polimorfos

PRODUTORA EM DANÇA
Aline Grisa

ATUAÇÃO POLÍTICA NA DANÇA
Cléia Plácido e José Renato de Almeida

 

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Coberto de azul, o palco da sala cênica do CRD se transforma em mar. Sobre ele, Mariana Muniz navega, no espaço, no tempo, na música, nas palavras, de Portugal ao Brasil, em “Fados e Outros Afins”. Repleta de poemas, a obra retrata uma “viagem que nunca fiz”, que é declamada pela bailarina e cantada pela trilha sonora, compondo o ambiente onírico desse espaço indeterminado, entre céu e mar, e navegando.

Trabalhando inicialmente com o corpo no chão, desenvolvido em torções expressionistas, demoramos para ver seu rosto. Entre Lusíada e o Desassossego, o retrato que se compõe é do mar e suas angústias. Salgado, perigoso, e destrutivo — mas talvez também um pouco reconfortante, confrontando a rigidez inicial do corpo com cenas de acalanto, de carinho, que se espalham pela obra, especialmente quando a intérprete pega um esqueleto dourado (do pescoço à bacia), e o manipula como se fosse um barco, numa curiosa imagem de um busto de proa, que navega pelo espaço.

É trabalhosa a articulação de fala e movimento, e muitos bailarinos acabam deixando a voz desmerecer trabalhos corporais mais interessantes. Esse não é o caso com Mariana Muniz, que com uma voz potente mostra a eficiente integração do texto em sua pesquisa cênica. Porém, do outro lado do espectro, com a duração do espetáculo, a voz, colocada entre tantos outros elementos, acaba perdendo força e fôlego.

De certa forma, há uma grande divisão no espetáculo, que faz questão de completar uma jornada de Portugal ao Brasil e, aqui chegando, fica um pouco mais confusa. A influência dos fados portugueses na cultura brasileira pode ser aludida, mas sua construção cênica ainda é tênue, perto da expressividade marítima da primeira parte. O resultado é que parecemos ver dois espetáculos, que poderiam ser segmentados já na construção do título: na primeira metade “Fados”, na segunda “Outros Afins”.

Ambas as partes têm interesse e potência, mas a conversa entre elas parece mais a de um procedimento do que a de uma composição: temos o cenário constante e a brilhante iluminação de Aline Santini, que fazem o espaço se perder ao fundo da cena, como se se estendesse para algum outro lugar; temos a estrutura musical e poética reiterada; mas há algo que não dialoga continuamente entre as partes, como se fossem duas instalações de um mesmo projeto, mas não necessariamente elementos do mesmo espetáculo.

Constrói-se uma plataforma e uma proposta densas, mas ficamos à expectativa de um plano de viagem que Muniz esclarece apenas após o final da obra, explicando suas simbologias e ideias, mas cuja percepção durante a mesma é sutil, e se organiza entre a estranheza e o familiar — semelhantemente aos fados e à sonoridade do português de Portugal, que ora parece próximo, ora distinto de nossa língua.

Também dentro do entendimento da estrutura proposta, é uma pena que Muniz dance e circule quase que indistintamente entre as partes do cenário que são “mar” e aquelas que são “terra”, assim desconstruindo a cuidadosa elaboração visual da cena. O que é inegavelmente trabalhado, pela força e expressividade da intérprete é o sentimento de melancolia, de saudade, e de incerteza — dos poemas, da jornada, e da trilha sonora. Não exatamente uma tristeza, mas algo com um mistério, “como uma ideia triste numa hora de alegria”: verso do “Livro do Desassossego”, que aparece e parece dominar essa viagem.

 

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Fados e outros Afins foto de Cláudio Gimenez net