Das Tripas… Coração | Balé da Cidade de São Paulo

Clínico, médico, hospitalar, o ambiente de “Das Tripas… Coração” (2015), que Ismael Ivo remonta agora para o Balé da Cidade de São Paulo, é um bom exemplo de trabalho expressionista, voltado para um olhar interno do corpo, e repleto de acessórios cênicos que operam uma inevitável sedução do olhar, às vezes competindo com a percepção da coreografia.

A cena abre com mesas espalhadas pelo palco que, com a iluminação vinda direto de cima ajudam a construir esse ambiente cirúrgico, que será declarado em outras estruturas cenográficas, como a projeção, ao fundo do palco, de um vídeo de procedimentos, de sangue fluindo, e de flores desabrochando — misturando várias imagens e metáforas aos corpos que parecem nus dos bailarinos, com um figurino inicial discreto, colado ao corpo, e da cor da pele.

Essa primeira cena, com uma coreografia individual dos corpos sobre cada mesa, mostra o melhor da obra: a investigação do movimento a partir do peso, com as dinâmicas de queda dos bailarinos sobre a mesa. Essa estrutura fortuita reaparece em diversos outros momentos da obra, mas, infelizmente, vai se enfraquecendo e perdendo espaço para adereços — visuais e coreográficos, como a insistência em solos soltos pelo espaço e em duos quase padronizados, que podem sim falar do tráfico de órgãos (anunciado tema da obra), mas também poderiam ser apresentados sob qualquer outra rubrica ou intenção.

Existe uma impressão de algo como um tribal jazz, que vem da trilha sonora e de seu percussionismo e também de alguns clichês de movimentação, em sequências de giros e pernas alongadas, que são várias vezes interrompidos pela exemplar manifestação-ápice do expressionismo, o corpo vibracional, contorcionista, retrato de uma eterna angústia que, em certos momentos do expressionismo, funcionou muito bem — por ser uma interpretação do sujeito colocado no mundo, e do impacto provocado por esse mundo, frequentemente inóspito e perigoso. Aqui, com um conteúdo de sentido tão pontual e específico, esse retrato é mais difícil de se compreender.

A essa dificuldade vai se somando o acúmulo de elementos, como os figurinos que se desdobram em corpos mutilados e panos brancos esvoaçantes, somados a outras projeções e a uma excessiva quantidade de movimentação das mesas pela cena. Ao final, um anúncio (quase um serviço público) é feito para discutir e apresentar o tema da obra, e sua relação com o tráfico de órgãos no Brasil. Sem ele, o tema não seria de todo entendido; com ele, desviamos muito depressa para o domínio do publicitário. A obra perde força, porque não realiza seu assunto por suas estruturas artísticas, recorrendo a essa estratégia de anúncio, que funciona quase como uma justificativa para sua existência.

Justificativa que não seria necessária, porque não se duvida nem do valor da mensagem, nem do potencial dos artistas envolvidos. Mas, enquanto desenvolvimento cênico, parece apontar para a percepção de uma incompletude, que também é ilustrada na movimentação: há violência, inegavelmente, mas ela é soterrada por camadas e mais camadas de lirismo e acaba perdendo o seu peso e impacto. Entre o lírico, o violento, o jazz, o expressionista, o visual, a obra não se encontra.

O que ela serve para demonstrar é alguma das veredas dos novos caminhos do BCSP, identificados já no começo do ano, quando Ivo assumiu a direção da companhia, declarando suas intenções transformativas. Estamos em um momento de transição, e temos visto e acompanhado esse momento durante o ano de 2017 todo. Ainda não chegamos a algum lugar especialmente bem resolvido, mas vemos seus indícios. Entre eles, o interesse em novos coreógrafos para a companhia, o trabalho de pesquisa corporal de seus intérpretes, a fidelização e ampliação de seu público, e o aumento das apresentações do grupo. Mas, aquilo que mais se percebe, até agora, é o gosto pelo imagético carregado e denso colocado na cena.

As estruturas visuais, de “Risco” (primeira estreia da gestão) até a mais recente “Das Tripas… Coração”, servem como um chamariz para o público, e, nesse sentido, são um inteligente passo nas dinâmicas da nova gestão. Espera-se que a partir disso seja possível colher frutos mais saborosos, que equilibrem a sedução, os conteúdos e as coreografias das obras e dos programas apresentados, assim dando ao excelente elenco do BCSP as oportunidades de mostrarem seu talento em dança.

 

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