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Arquivo mensal: outubro 2017

crítica publicada no jornal O Povo, em 31/out/2017

 

critica paracuru

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Claudio Bernardo deixou o Brasil em 1986, foi estudar na Mudra, escola de Maurice Béjart, na Bélgica, e eventualmente tomou o país como casa. Lá, fundou sua companhia, As Palavras, que, em sua comemoração de 20 anos, olhou para trás, para seu percurso pessoal e profissional, num solo celebrativo.

Uma forma de autobiografia epistolar sentimental, parte de uma carta recebida por Bernardo ao deixar o Brasil, e de outras tantas — entre as quais se reconhecem Kafka, Pasolini e Rilke — para desmembrar as partes de uma colcha de retalhos que o compõem.

Esses retalhos são transformados em cenário, e espalhados pelo chão, inicialmente cobrindo toda a cena e, pouco a pouco, sendo removidos pelo bailarino, revelando o palco nu, como lugar de memória, e suas coberturas — por vezes bagunçadas — que escondem e revelam as camadas do passado.

Para acessar esse passado, Bernardo se torna um contador de histórias (próprias), misturando o francês e o português — como sua própria vida — e aqui entra seu principal diferencial: o timbre de sua voz, lhe dá a qualidade rara de um bailarino que além de se ver, se quer ouvir. As mensagens não são apenas bem construídas, mas são deliciosamente transmitidas, nesse solo que é longo, mas é tão agradável que não parece ser.

Entre verdades pessoais, memórias de infância e de carreira, de seus pais dançando na sala até instantes notáveis de suas obras, o bailarino se questiona — e nos questiona — o que é um coreógrafo, o que é coreografia. Explica a metáfora da foto, tida como uma verdade, e do vídeo, enquanto sequência de fotogramas, múltiplas verdades por segundo. Nessa noção, ele nos coloca a dança como uma forma de verdade estendida, prolongada, contínua, sem interrupções.

Assim, os 20 anos da companhia passam em revista. Com o auxílio de projeções, percebemos as marcas e a passagem do tempo. Aquele tanto de coisa que muda, enquanto tanto mais permanece inalterado, entre a carta afetuosa de sua amiga, que nos fala de companheirismo, de amor e de distância, e as outras cartas — talvez menos afetuosas, inclusive — e que se debruçam sobre temas mais próximos à família.

De volta a Fortaleza para dançar sua história, o que encontramos é um momento de homenagem e de acolhimento, em uma investigação sobre deixar um lugar e querer se fazer em outro, e criar e continuar. Os marcos desse caminho, as coisas que precisam ficar pra trás, e as tantas outras que encontramos.

Por quanto tempo? Se nada continua para sempre, e trabalhos de natureza celebrativa / memorial focam as questões da passagem, é necessário pensar quanto tempo duram as coisas. Ainda que não tenhamos respostas claras, só instantes, como que fotografias. Verdades, sim, mas temporárias, passageiras. Que espelham a vida, e se ilustram na carta que inspira a obra, que termina nos falando da idade de sua autora, então refletindo sobre Bernardo, que tinha só 20 anos quando deixou o Brasil.

Daí vem o título, refletindo não só o tempo das pessoas, mas o tempo das instituições, reflexão especialmente importante na ocasião do aniversário da companhia, que, quando a obra foi criada, comemorava “só” vinte anos. Que também é tempo demais. É o tempo de toda uma vida, e, por isso, arriscaria soar como retrospectiva, mas escapa dessa armadilha. Os 20 da carta foram a mais tempo, e ouvida agora, seu tom não é passadista, mas de prospecção, fazendo pensar no que vem depois desses só 20, e de outros 20 tantos, reconhecendo a efeméride, mas sem transformá-la em epitáfio.

Da mesma forma, é a qualidade do trabalho, e não seu aspecto de volta pra casa, que mais depõe a seu favor. Toca por ser sincero, funciona por não precisar disfarçar nem lembranças, nem emoções. E emociona por reunir, num instante, o “pouco” e o “tanto” de só 20 anos.

 

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“3 Pontos…”, coreografia de Alex Neoral criada em 2009 destaca três momentos da trajetória da companhia carioca, com três coreografias que servem para ilustrar um percurso e para mostrar as caras do tipo de trabalho energético, altamente corporal, e técnico, que o grupo desenvolve.

A primeira das cenas, “Pathways” coloca 4 bailarinos dançando uma trilha sonora digital, que cria uma ambientação indeterminada. Dentro dela, em módulos que parecem formas de TOC, vemos os bailarinos repetindo pequenos movimentos sequenciais em diversas situações, no início em pé, depois se reorganizando em outros pares e num grupo no chão, nas muitas variações da estrutura que o coreógrafo compõe.

Já aqui, todas as assinaturas de Neoral aparecem: as formas de articulações entre os bailarinos, com uma variabilidade na formação dos grupos, os trabalhos com quedas até violentas e pelo chão, pesquisa de apoios e de giros, e estruturas multidirecionais.

O que falta, desde essa primeira cena até o final da obra, e em outras da Focus, é uma boa parceria com figurinistas e iluminadores. Os figurinos do grupo continuam perdidos no limbo do genérico contemporâneo, que não condiz com a qualidade dos trabalhos que são apresentados.

A segunda coreografia, “Interpret” nos apresenta 5 bailarinos, agora menos sincrônicos. Talvez estejam menos acostumados à coreografia, em que predominam as combinações de conjuntos, as possibilidades de apoios múltiplos agindo simultaneamente em um só corpo, bem como entre os muitos corpos.

A trilha sonora é realizada ao vivo por um violinista, incluído em cena com os bailarinos, e ainda que não se articule com a coreografia, sua influência pelo espaço cênico cria um sexto intérprete.

Os conjuntos propostos revelam possibilidades de movimento macro, em grandes extensões corporais, e não só a partir dos apoios, mas também em cada um dos corpos dos intérpretes, com uma grandiloquência coreográfica que pesa para um jazz contemporâneo, recheado de quedas e de riscos.

Até aqui, a obra é interessante, é sólida, mas é seca. Tem precisão, tem proposta, tem talento, mas quase não tem carisma. É em sua terceira parte, “Strong Strings”, que o coreógrafo se apoia — novamente — na trilha sonora, para criar essa empatia, que se coloca com o público, mas não mais entre os intérpretes.

Num grande ensimesmamento, o conjunto de 8 bailarinos dança solos simultâneos. Eles estão presentes no mesmo momento, no mesmo espaço, dançam quase sempre a mesma coreografia, às vezes todos, às vezes quebrados em agrupamentos menores, mas nem se tocam, nem se olham, nem interagem.

É a trilha sonora, mais popular — Nirvana tocado ao vivo por um quarteto de cordas —, que pode nos aproximar do trabalho, o qual, em si, reproduz o estilo de dança de Neoral, como uma forma de exibição de corpos potentes. E esse é o seu maior efeito: a proposta é de virtuosidade descolada, pedindo para ser admirada.

Com algumas passagens de cena — desnecessárias — em que os bailarinos somem e voltam, cada vez mais vestidos (para propósito nenhum — mais uma vez a falta de trabalho e conceito nos figurinos), a forma que se mantém nessa estrutura é a da queda e do alongamento do corpo, sempre melódico, sempre musical, e se relacionando com os músicos presentes no fundo da cena.

Seria um possível desafio maior o de realizar essa proposta toda com o elenco nas pontas, por exemplo. Escolha que não seria gratuita, posto que há aqui esse objetivo de demonstração de capacidades técnicas, e que combinariam com o propósito das pontas, o que poderia ter sido uma escolha coreográfica — finalmente — inesperada, e realmente digna de admiração.

A própria questão da admiração e da observação são o que encerram a cena, com os bailarinos saindo do palco e se sentando no chão, à frente da plateia, para olhar para os músicos. Assim como o público, eles observam uma outra forma de virtuosismo que não é a sua.

No todo, a obra faz sentido, é encaixada e coesa, ainda que exibicionista. Mas isso é um prazer visual, e não um desagrado. É a proposta, e está bem desenvolvida e interessa bastante ao público, numa das melhores realizações da Focus.

 

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