Alex no País do Lixão | XL Production

“Futuros distópicos e os caminhos da dança (‘Alex no País do Lixão’)”, escrita para o Criticatividade 

 

Há algo de especialmente interessante em termos obras voltadas ao público infantil dentro de uma programação como a da Bienal Sesc de Dança, e que vai muito além da questão de formação de plateias. Numa proposta tão específica como a que encontramos ao longo dos 10 dias da Bienal, é fundamental refletir como uma obra para crianças se encaixa — ou não — dentro de um conjunto de outras obras; como ela pode ser apreciada — ou não — também pelos adultos da mesma forma que as outras obras do evento.

Em “Alex no País do Lixão”, que Maria Clara Villa-Lobos criou em sua companhia belga, a XL Production, encontramos um agradável desvio do caminho geral da Bienal. Se a programação, no todo, mantinha um foco político no tema da resistência, aqui, escapamos para o social, trabalhado numa adaptação de “Alice no País das Maravilhas”, para uma Lixão — realidade distópica em que a administração do País das Maravilhas permitiu que seu país se transformasse num Lixão.

Discutindo a indústria, a sociedade de consumo, o acúmulo de produtos e seu descarte, a obra vai em direção a todas as expectativas para um espetáculo infantil, mesclando educativo com conscientização, numa plataforma de efeitos visuais que lembra a estrutura de programas de TV, usando da agilidade das cenas e sua continuidade para manter a atenção das crianças.

Há que se questionar a necessidade — quase compulsória, aparentemente — de se fazer arte educativa para crianças. Mas, como não é essa uma Bienal infantil, apenas incluindo alguns espetáculos especificamente para esse público, a questão que importa é outra: como a obra dialoga com as demais do programa?

De maneira rasa, ela praticamente não dialoga. “Alex” foi apresentada no último final de semana da Bienal, e, a esse ponto, já tínhamos ideias claras do conjunto da programação, que parece trazer uma diferença curatorial fundamental entre as obras estrangeiras — predominantemente dinâmicas e vigorosas — e as obras brasileiras — predominantemente arrastadas, ralentadas. O motivo? A questionar a equipe de curadores…

O fato é que há diálogos na programação, mas que a seleção das obras brasileiras frequentemente prefere constituir diálogos de uma só voz. Nesse sentido, assistir a “Alex” no meio da tarde do último dia da Bienal é uma agradável surpresa. Com soluções cênicas simples mas elegantes e bem resolvidas, combinando visual, música, movimento e, sobretudo, proposta, esse espetáculo infantil se coloca como um dos pontos altos da programação.

É clara a dedicação para crianças, mas não há nenhum cuidado ou atenção menores na realização da obra, que sustenta seu interesse para os adultos presentes. A obra é leve e cômica, mesmo ao discutir um tema ambiental sério e seus desdobramentos. O mote inicial, uma Alex-Alice carente de contato e afeto, desejando um cachorro, mas tendo que se contentar com bichos de pelúcia, é transformado quando a protagonista, desapontada, decide jogar suas pelúcias na lata de lixo, pela qual entrará como se fosse a toca do coelho, para chegar a esse ex-país-das-maravilhas.

Ali, veremos adaptações de diversas das figuras tradicionais dessa história, a melhor delas, o chapeleiro maluco e a cerimônia do chá. A constante mudança de lugares que ocorre durante o chá sendo usada para se explicarem as mudanças ocorridas no País das Maravilhas, transformado no Lixão a que assistimos. A popularidade da exploração narrativa de futuros distópicos não é segredo, e aqui se encaixa com o tema de forma efetiva.

O aspecto leve, mantido durante toda a obra, é o grande choque frente à programação desse mesmo dia, que incluía “Protocolo Elefante” do Cena 11, e “Para que o Céu Não Caia” da Lia Rodrigues, por exemplo. A leitura do todo poderia ter o tom profético: a maioria das obras da Bienal nos fala de formas de resistência, e essa nos mostra aquilo que acontece quando não há resistência a certas imposições. Nesse sentido, o alerta para as próximas gerações é até sombrio. Para os adultos, que puderam acompanhar o resto da programação, a questão se amplia do ambiente para a arte: a que precisamos resistir, para que a dança não se torne apenas reflexo de tristes efeitos, sintomas e silêncios?

 

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