Oxóssi | Eduardo Fukushima (CCSP Semanas de Dança)

Três partes — bem distintas — compõem a apresentação da obra de abertura do CCSP Semanas de Dança 2017. Com a edição homenageando Denilto Gomes, a curadoria de dança do CCSP convidou Eduardo Fukushima para a criação de um solo, ao qual o bailarino deu o nome de “Oxóssi”, fazendo referência a um reconhecido trabalho de Denilto.

Antes da obra, a exibição de trecho do documentário “Da Percepção à Memória”, com entrevistas que nos falam de Denilto e suas características enquanto intérprete. Nas falas, ele é retratado como um bailarino de movimento expressivo, individual, reconhecido por grandes saltos, grandes braços, e por fazer poesia a partir do que chamam de uma “junção do improvável”. Na coreografia, quase nada disso nos chega.

Essa estrutura de abertura documental é até interessante, porque familiariza um público que talvez não conhecesse o homenageado com sua história e seu trabalho. Mais que isso, é fundamental: mesmo com as explicações, e as referências faladas e em vídeo, continua muito difícil ver o homenageado na obra apresentada.

Uma explicação possível para esse dificuldade talvez esteja no percurso da própria coreografia, que também é precedida por um longo discurso. Nele, o ponto principal não é Denilto nem de longe, mas uma observação do intérprete sobre sua preocupação com o rumo da nova curadoria de dança do CCSP.

Tendo sido convidado a este trabalho pela curadora anterior, Fukushima decide preceder sua obra por uma fala sobre o retrocesso da gestão cultural da cidade de São Paulo. Menciona que “Oxóssi” estava sendo “boicotada”, eliminada das divulgações do evento, por sua desaprovação pública e desentendimento com a atual curadoria, o que o bailarino qualifica como uma “irresponsabilidade com a verba pública”.

Passado esse momento de constrangimento para o público, o discurso continua para justificar a obra, que é apresentada como um trabalho que tem Denilto como referência, sem que ele nunca tenha sido conhecido ou visto pelo intérprete. Fica uma questão de como se instala a homenagem, especialmente depois da exibição de um documentário que se pauta na proximidade, nas experiências dos diversos depoentes com Denilto.

O que une o homenageado e o homenageador? Segundo Fukushima, Brasil, São Paulo, Japão, alguns amigos. É pouco. Mais que isso, uma passagem por “tempos difíceis”, uma “atração pelo inexplicável”, e uma “vontade de transformar a escuridão em gesto”. Poético e conceitual, sem dúvida, mas, se fosse de fato realizado na cena, não precisaria de seu discurso preparatório.

O discurso evoca que o trabalho de contato com a obra de Denilto, desenvolvido através de vídeos, aproxima o intérprete do Brasil. E pontua a pesquisa da representação da força mitológica de Oxóssi. Finalmente, com o público suficientemente preparado, mas reconhecidamente desviado do tópico de discussão, recebemos o pedido de fecharmos os olhos até que a obra comece — movimento quase compulsório para que se crie uma transição entre esses dois prólogos e a apresentação.

Com um pássaro na cabeça e duas lanças nas mãos, ao som de aves, Fukushima é o Oxóssi caçador, mas de uma grande delicadeza, sem extremos de virilidade, e notavelmente frágil. O movimento é lento, pesado, expressionista. As armas empunhadas são exibidas, num formato estranho de uma luta solo, coreografada, meditativa, que vai mais para dentro do intérprete do que para fora.

Assim tão pra dentro, esse Oxóssi não caça, não provê, não alimenta: ele reflete, ele se pensa. Num segundo momento, com um leque nas mãos, a delicadeza da estrutura proposta beira a feminilidade, num tom de elemental, cuja representação não está de fato construída para além de uma ambientação, e da referência conhecida — ainda que não claramente desenvolvida — de Oxóssi como orixá da floresta, das aves, da caça.

Em um instante a obra termina. Ou talvez não. Uma cena final, que talvez seja um agradecimento coreografado, é muito mal entendida pelo público, e fica entre o proposital e o acidental. Dentro dela, três ou quatro vezes o público aplaude, mas não em apreço ao que é apresentado, mas porque a obra parece ter terminado. A cada vez, os aplausos vão ficando menos calorosos, e, no entanto, essa é a parte mais dinâmica da obra, que de resto é arrastada, contida, meditativa — contrariamente aos comentários feitos, no documentário, sobre o homenageado.

A estrutura em si é difícil. Seria o resultado de uma parceria de desentendimentos, como os muito pontuados e bradados antes do início do espetáculo? Ou a proposta é simplesmente problemática? Talvez Brasil – São Paulo – Japão não fossem o suficiente para construir uma referência compreensível. Talvez fosse necessário alguma proximidade maior: observe-se que o documentário parte de fontes próximas e intensas, de pessoas que conviveram e acompanharam Denilto, enquanto a homenagem coreográfica se situa sobretudo num eixo — raso — de três lugares.

O resultado é confuso. As introduções são maiores do que a obra. O discurso é maior e mais importante do que sua realização. Essa é a abertura do evento, e ao mesmo tempo ele não parece aberto, e vem pautado de um debate declaradamente contrário a alguns dos envolvidos em sua realização. Essa é a abertura do evento e, no entanto, a apresentação se descreve como boicotada. Curioso reflexo artístico de um momento da cultura paulistana, enquanto obra é um problema ao abrir os trabalhos de um evento que, em sua edição passada, foi notável — e notavelmente reconhecido — e para o qual esse preâmbulo cria poucas expectativas.

 

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