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Arquivo mensal: março 2017

A comemoração dos 20 anos da Companhia de Danças de Diadema, se deu em 2015 com a criação de por+vir, espetáculo de Ana Bottosso que contou com coreografias de oito coreógrafos, além da própria diretora da companhia, num momento de reflexão que discute aquilo que já foi feito, e aquilo que a companhia ainda virá a fazer. Os coreógrafos convidados já haviam todos passado anteriormente pela companhia, criando, nessa nova ocasião, peças então inéditas junto do elenco atual. O resultado é um espetáculo de múltiplas referências, mas que não se perde, com uma costura e alinhavo bem feitos pela diretora, e por uma equipe técnica que sustenta a obra, junto das criações dos coreógrafos.

De volta à capital, o espetáculo em cartaz na Caixa Cultural começa no hall, com a coreografia-instalação Nós de Nós, de Cláudia Palma. Silencioso preâmbulo, nos mostra os bailarinos um a um, sozinhos, separados, e depois se aglomerando, explorando as possíveis interações entre os corpos, que se espremem e se fundem, quase como cristais, ou rochas maleáveis, com os olhos vidrados e os rostos vazios de expressões. Colapsando, esse aglomerado, ou nó, fica ali no chão, no meio da platéia à espera de entrar na sala, para depois começar mais uma vez a se desamarrar, dissolver, e, um a um, os bailarinos vão se soltando, voltando ao espaço separado. Boa reflexão para uma companhia contemporânea, o exercício é o de tornar-se grupo e o de ser indivíduo, não a partir das características de cada um, mas a partir daquilo que faz o grupo continuar: o movimento, a dança.

Reflexão sutil, marca um tom sóbrio, que não predominará pelo espetáculo, mas que se mostra vez ou outra, sobretudo nas obras de sua primeira metade. Se o programa nos fala sobre o olhar acolher, sobre o aconchego do corpo, o que se demonstra é menos macio e quentinho, é algo da aspereza do contato forçado, e da maleabilidade insistente do corpo, que resiste, se adaptando, ora se transformando em grupo, ora se separando em indivíduo. Há ai um tema, uma proposta, uma possibilidade de discussão, mas o exercício é primário — um bom primeiro passo para a criação de algo para o público, mas, como está apresentado, ainda algo que parece servir ao grupo mais que às pessoas do lado de cá da platéia, mesmo que os bailarinos estejam, nesse momento, em nosso meio.

Esse é um risco da dramaturgia de por+vir. Nove criadores, para 70 minutos de obra é uma estrutura que grita constantemente por um equilíbrio muito complexo e muito delicado, que depende de múltiplos fatores. Felizmente, a mão de Ana Bottosso, que junta esses pedaços todos, é forte nas costuras. Bakú, sua contribuição para o programa, não é uma cena, mas um conjunto de intervenções que aparecem entre algumas das cenas dos outros coreógrafos.

A estratégia funciona tanto em seu sentido prático quanto em seu sentido estético. A partir da imagem de uma entidade oriental que espanta pesadelos, Bottosso coloca em cena um processo micro-narrativo que se constrói em pequenas vinhetas. Nelas, o que se destaca é a qualidade dos movimentos das intérpretes, que incluem a própria coreógrafa e criadora da companhia, numa alusão à noite, ao claro e escuro, ao pesadelo e ao sonho. Esse processo se dá com uma homenagem a Ivonice Satie, que de fato transparece em cena e nos corpos, entre um semblante sério e um corpo ágil, relembrando uma das nossas grandes bailarinas, coreógrafas e diretoras.

Porém, como as múltiplas vinhetas vão aparecendo entre algumas das coreografias, seus maiores momentos apenas chegam realmente mais para o final do espetáculo, sobretudo numa cena com as duas bailarinas sentadas em banquetas, de costas para a platéia, e o duo final em que a a criatura mítica se materializa completamente, sendo enfrentada por Ana com um leque. Até chegarmos ali, temos o começo um pouco mais parado, que vem da obra de Cláudia Palma, e também da criação coletiva de Pedro Costa com o elenco da companhia, Caminhos Traçados, que, fiel a seu título, é uma obra direcional.

Em caminhos traçados, os bailarinos estão com os membros estendidos tentando constantemente alcançar algo que não sabemos o que seja, enquanto demarcam o espaço, desenham pelo chão e pelo ar, criando, com o movimento, um mapa que não se registra senão em nossa memória. O conjunto se desdobra em múltiplos duos de queda, de levantamento, apoio e impulso, que vão ganhando dinamismo e parecem aludir a certas referências corporais que veremos em outras das coreografias.

Por exemplo, em .entre pontos., ponto alto da primeira metade do espetáculo, de Fernando Machado, que leva a sério e a cabo o título do conto “A tribo com os olhos para o céu” de Ítalo Calvino, que serve de inspiração para a criação da coreografia. Aqui, finalmente, parecemos ter algum indício do direcionamento dos olhares, que até então parecia causar estranheza, e nesse momento começa a ganhar sentido.

Os bailarinos partem de desdobramentos corporais meditativos e dessa busca de algo no céu para desenvolver dinâmicas do sagrado em uma dança que lembra um ritual. Não se trata de um sacrifício, mas de uma experiência talvez religiosa, e sempre celebrativa, ainda que sombria. Há algo que se volta para o chão, mas que dele tenta escapar, sendo concretizado em múltiplas formações, sobretudo em uma das imagens que ficam conosco do espetáculo, com o grupo dos bailarinos deitados e passando uma bailarina por cima deles, apoiada em suas mãos.

Essa reflexão sobre a vida, suas condições, e sobre as possibilidades individuais e coletivas chega à beira de um colapso na coreografia seguinte, Gárgulas, de Sandro Borelli, que coloca em cena dois corpos que se refletem, em contorcidas posições de estátuas-vivas. Para discutir a dilaceração física e moral, essas duas gárgulas sublimam o tempo: seu tempo não é o tempo dos homens, o que se marca pela contínua lentidão na movimentação, mas sempre progressiva, sempre sem parar. Nessa estrutura, as bailarinas atravessam e contornam a cena, em caminhos que não exatamente levam a algum lugar, mas que resistem e que insistem, demarcando algo de mórbido, mas inevitável, como o tempo e a morte, sempre iminente.

“Esse Samba É Meu”, de Sérgio Rocha, marca uma mudança no andamento da obra, que começa a se apressar. A cena é uma procissão de carnaval de rua, em que os bailarinos percussionam nas mãos e nos pés, sambando e se divertindo e tratando, bem de leve, de suas experiências pessoais com essa dança. O programa do espetáculo nos diz que a criação surge a partir dos relatos dos bailarinos, questionados com a pergunta “Quando e como foi o seu primeiro contato com o Samba?”, mas, de fato, o que percebemos é essa aura, até contagiante, de festa, que o samba tem.

O que sabemos a mais sobre os bailarinos e suas experiências? Nada. Mas esse é o ponto. O coreógrafo se propõe discutir algo do que defende como uma universalidade do samba na memória do brasileiro, e por isso a obra funciona nos colocando nesse espaço que força a lembrança de alguns momentos pessoais. Ainda que não nos diga nada particular sobre os outros, tem o curioso efeito de nos dizer algo sobre nós mesmos. Estratégia que precisa ser reconhecida e admirada.

Essa discussão do eu e do outro continua em entremeios, de Mário Nascimento, que coloca no palco cinco bailarinos de botas, numa estrutura sonora que mistura o sintético ao natural, e numa proposta coreográfica que discute o posicionamento e o deslocamento. Coreografia de complexa execução, coloca os bailarinos numa diagonal de luz, variando entre o repouso e a hiper fisicalidade, com a realização de stunts virtuosos que compõem com o espetáculo no sentido de nos mostrar, mais que qualquer outra das coreografias de por+vir, a qualidade técnica desse elenco, que merece ser declarada e reafirmada.

Ainda que não se trate de algo inovador, ou especialmente criativo, o que essa coreografia tem de potência é a exposição, fundamental numa obra como essa, que é uma celebração de uma carreira respeitável, e uma afirmação da relevância atual desse grupo. Poderia-se torcer o nariz para a proposição expositiva, mas não quando ela faz parte desse todo. Entre nove criações, uma que mostra o quanto eles conseguem fazer não é algo de exibição gratuita, mas algo de afirmatividade e de qualificação, revelando uma capacidade e uma potência, e deixando a curiosidade para a continuidade da companhia. É especialmente interessante repensar esse trecho agora, depois da companhia já ter estreado mais uma obra, Eu Por Detrás de Mim (que já foi criticada aqui), e que também é, em si, um testamento do apuro técnico desse elenco, que tem sido continuamente trabalhado pela direção, e agora pode mostrar seu bom nível.

A obra seguinte é 1+um, de Henrique Rodovalho, e, como costuma acontecer em trabalhos do coreógrafo goiano, no primeiro gesto da obra já nos sentimos em sua companhia. Autor de um universo específico, especialmente dedicado a discutir relações interpessoais, aqui Rodovalho nos mostra um duo em que novamente essas relações nos provocam dúvida: elas funcionam ou não? são relações bem sucedidas ou não? Os amores difíceis não são tema novo para Rodovalho, e a coreografia criada especialmente para a Cia de Diadema carrega profundas marcas de outras de suas obras.

Sua beleza é constante, mas sua execução é trabalhosa. Não porque demande uma capacidade para grandes truques, mas porque a movimentação do criador é de uma qualidade única e específica. Seu trabalho com a segmentação do corpo vai na contramão do que a maior parte dos bailarinos contemporâneos tem como impulso natural de ação e como desenvolvimento e treino prévios, e, aqui, ainda que os bailarinos sejam lindos em cena, o entendimento que eles demonstram da execução dessa movimentação segmentada ainda é rudimentar. Os gestos e as poses de Rodovalho estão lá, mas elas se perdem sutilmente entre as informações já presentes nos corpos dos bailarinos, e ai, acabamos tendo contato com seu trabalho como algo enfraquecido, ou diluído.

Não há diluição nenhuma na obra que encerra por+vir, Novena, de Luis Arrieta. A coreografia é simples e pungente, e, exatamente por isso, eficiente. O chão do palco, preto, recebe três faixas de linóleo cinza claro, que serão desenroladas, uma por vez, indo de um lado em direção ao outro do palco. Cada uma das três faixas avança mais que a anterior, mas nenhuma delas completa a travessia.

Iluminadas por três faixas de luz em gradações diferentes, essas faixas são desenroladas pelo movimento dos próprios bailarinos, que se curvam, se levantam, escorregam, deslizam, indo e voltando pelos caminhos, como se fossem maré. Ajoelhados, navegando, os bailarinos realizam uma oração coreográfica, em direção à luz. Sincera, não exatamente apostólica, mas delicadamente devota. Mãos prostradas, olhando para a luz, à espera de uma intercessão, numa atitude de respeito que nos revela, em suma, o tom geral de por+vir: reverenciando a um só tempo passado e futuro.

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A primeira temporada do Balé da Cidade sob a nova direção de Ismael Ivo trouxe a estreia de Risco, assinada por Sérgio Ferrara, e reprisou Adastra, criada por Cayetano Soto em 2015, e presente no repertório da companhia desde então. Adastra tem bons motivos para continuar sendo dançada: a obra é uma das jóias do BCSP. A coreografia é requintada, a música é melódica e sedutora e a iluminação é dinâmica — um conjunto que fascina e encanta o público, e demonstra o seu valor a cada apresentação. Porém, também como uma jóia, essa obra precisa de certos cuidados especiais em sua conservação.

Há um ano e meio no repertório da companhia a obra continua tao impressionante quanto sempre, e chega ao seu final com um inegável gosto por mais — são raras as vezes em que desejamos que uma coreografia fosse mais longa (normalmente o efeito é justamente o contrário), mas esse é o caso aqui: Adastra termina e, imediatamente, poderia recomeçar, de novo e de novo — uma pena não ter sido usada para o novo projeto “Bis no Municipal”, em que os grupos que se apresentam reprisam trechos das obras, permitindo nesse momento que o público as fotografe e filme.

Porém, especificamente nessa temporada, essa jóia está menos brilhante, menos polida do que já a vimos anteriormente. Um sentimento de imprecisão domina essa temporada [Adastra tem rotação de dois elencos, e nessa temporada foi assistido o elenco do dia 28 de março], de forma que a coreografia que continua deslumbrante nos solos, mas mostra notáveis problemas de ensaio nos conjuntos, estranhamente fora de sincronia. Triste dificuldade para o corpo do BCSP, que normalmente demonstra, além da expressividade, um grande apuro, e nessa situação parece não estar pronto: como se a obra tivesse sido montada às pressas, e sem o tempo de trabalho e de limpeza necessários, e que são de praxe, sobretudo para uma obra que já tem um ano e meio de vida e de trabalho. Talvez entre os motivos para essa sensação de despreparo estejam a mudança recente na direção e, em certa medida, no projeto artístico da companhia, que anuncia novos ares. Mas, mesmo dentro dessa nova situação, continuamos com uma dada expectativa do Balé da Cidade, que não foi atendida nos níveis a que estávamos acostumados.

Em 2015, o Da Quarta Parede já observava Adastra como um ponto alto da temporada do BCSP, num elogio às suas linhas brutas e resistência, que colocam os corpos dos bailarinos em tensões que resistem ao movimento, criando múltiplas torções sustentadas, levantamentos inesperados, movimentos de deslizar pelo palco, e uma possibilidade imensa de erro, presente em risco, mas que nunca se transforma em desastre. Mesmo os problemas encontrados nessa temporada não desmerecem o elenco, e parecem algo mais pertinente ao trabalho dos ensaiadores da companhia, e dos responsáveis pela constante manutenção da obra. O elenco, em si, seduz mesmo de costas: uma das insistentes imagens do espetáculo traz os bailarinos subindo do fosso da orquestra para dentro da cena. Nessa posição, com os rostos escondidos do público, e toda a possibilidade de intenção sendo transmitida por seus corpos, iluminados indiretamente pela contra-luz, eles caminham se afundando no palco, para depois comporem seus pequenos grupos de movimentação.

Esse exemplo de posicionamento inesperado ecoa em outros elementos da obra, sobretudo na interessante construção de uma iluminação composta de focos de diversos tamanhos, alguns deles móveis, e que criam efeitos de recorte no palco, separando espaços de ação, sem, no entanto, emoldurar os corpos o tempo todo, que dialogam também com o espaço escuro ou na penumbra, e não só com o iluminado.

Novamente trabalhando com essa companhia, é impossível não notar uma repetição de uma imagem, aparentemente no gosto do coreógrafo — que havia anteriormente criado já duas peças para o grupo, em 2008 e 2014. Trata-se da imagem de algo que cai, invadindo a cena. A canela em pó, da obra de 2008, Canela Fina, e aqui, uma chuva de peças brilhantes, que parecem vir ilustrar o tema retratado pelo título da obra: Adastra vem da frase em latim per aspera ad astra (pelo esforço, o triunfo). Triunfo que se faz na frase pela imagem dos astros/ estrelas (astra), e que aqui parecem chegar para os bailarinos. Infelizmente, essa chuva dessas peças brilhantes se realiza até que discretamente, e apenas no fundo do palco. Infelizmente porque, se entendida como a glória do título, nos deixa com o desejo de que tomasse a cena completamente, transbordasse pela platéia e nos invadisse desse triunfo compartilhado. Uma glória, portanto, não tão grande, mas que não diminui a realização da obra, recebida pelo público com entusiasmo e uma sensação geral de impacto.

É difícil seguir Adastra, e, com Risco, a estratégia pareceu investir justamente no impacto visual: enquanto Adastra se sustenta pela especificidade e qualidade da coreografia, Risco aposta todas as fichas na ambientação. Denominada no programa como uma “instalação coreográfica de dança”, a obra tende a um aspecto teatral e operístico, que aposta na grandiose do visual para forçar um caráter épico, alimentado pela música dramática de Gustav Holst e Otorino Respighi, executada ao vivo pela Orquestra Sinfônica Municipal, com regência de Luis Gustavo Petri, mas que não se repete nos corpos e, muito menos, na dança da obra.

Uma grande quantidade de projeções — em múltiplas telas, desde o fundo nú do palco, até três pedaços do chão que se levantam em várias ocasiões — contribuem para o sentimento de grandiosidade. Mas, o resultado, de fato, é um excesso de vídeo, que funciona como plano de fundo, mas que não dialoga com o que está no palco, parecendo pedir ao público para não dar atenção aos bailarinos, que usam seus corpos constantemente para se debater, estrebuchar e gritar em cena, vestidos em preto, branco e cinza, contra o panorama colorido e vivo dos grafites e cenários de São Paulo projetados repetidamente.

Há imagens interessantes na obra, mas o que elas podem nos dizer é algo pouco claro. A cidade é hostil? Entre os gritos e a violência dos movimentos, há algo de ameaçador — mas a ameaça é algo de fundamental para o épico, que parece um projeto aqui e em Risco é construído em cenas, mas não em dança: a coreografia, em si, que não tem assinatura de coreógrafo, lembra obras do Dançographismus, o projeto do Balé da Cidade que dá a seus bailarinos primeiras oportunidades de coreografar, em situações menores que as temporadas do municipal. infelizmente, as obras lembradas não são as melhores do projeto. Com a direção da obra voltada ao visual, o que se sobressai são os efeitos, e não a dança.

Com que propósito isso se dá? Retratar a cidade é um tema recorrente na companhia e apareceu, a grosso modo, em praticamente todas as gestões anteriores. Ou seja, o tema em si não é novo e já foi trabalhado em muitas referências e muitos modos, e com muito mais dança. O que há de imediato aqui é a associação dessa obra com o momento atual da cidade, das dificuldades financeiras da gestão cultural, e de constantes embates entre artistas e o governo, que chegam, por exemplo, em recentes protestos em torno do Theatro Municipal.

Como avaliar Risco, nessa situação? Por princípio, Risco é uma coreografia importante. Trata-se de uma questão histórica: além desse momento tão específico, esta é a primeira coreografia de uma nova gestão, que, acreditamos, pode trazer bons frutos. Isso bastará para que ela seja lembrada, como um marco, não estético — e decididamente não coreográfico — não uma questão de mérito, mas de um marco pessoal, na história dessa grande companhia, desse grande novo diretor, e, talvez, da cidade. O difícil paralelo é que, enquanto isso, Adastra fica lembrada como uma das grandes obras da companhia. Uma das melhores, senão a melhor, do repertório recente, como o próprio programa salienta.

Adastra é realmente uma jóia, seu valor é intrínseco. Risco é de outra matéria. Emocionalmente, socialmente, ou pessoalmente, podemos dar a ela o valor que quisermos. Ela pode ser tida como um marco, como incontornável, como expressiva e representativa. Mas esse valor (ou a negação dele) é algo colateral. Não vem da obra, e sim de seu contexto. Com todos os defeitos que nela se inscreverem, Adastra continua sendo uma jóia, mesmo que eventualmente esteja desgastada, escondida, ou mesmo abandonada. Com todos os holofotes que sejam colocados sobre ela, Risco pode chamar a atenção, mas seu valor é de outro tipo. Dialoga com certas estruturas da arte — e da cidade de São Paulo — porque encontra a beleza e o apreço no que não necessariamente tem em si um valor elevado, ou notável importância. Nesse sentido, Risco é valiosíssima, mas essa é toda uma questão de interpretação, e que não emana diretamente da obra, mas do olhar que sobre ela colocamos: e esse olhar é enfeitiçado pelo brilho dos holofotes, das cores, da música, das projeções, da água, das tintas, dos trapézios, dos bailarinos alados… Um brilho exagerado, que, na verdade, ofusca mais do que ilumina.

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