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Arquivo mensal: janeiro 2017

O Ballet Stagium comemora seus 46 anos de atividade em temporada no Teatro J. Safra, com a estreia de Memória e a reapresentação de Preludiando, de 2016. Mais antiga companhia privada em atividade no Brasil, o Stagium se tornou um marco, desde os anos 1970, pelo trabalho com temas e artistas brasileiros em obras que mesclam o uso da técnica clássica com múltiplas referências teatrais e artísticas, em criações originais, que circularam todo o país e outros continentes, e apresentaram — para os brasileiros e para muitos estrangeiros — a potência da dança que se faz aqui.

Enfrentando um difícil período de crise, a companhia se volta para sua história para compor um espetáculo de retrospectiva. Assim vem em cena Memória, que nos apresenta o elenco do Stagium todo vestido de cinza, e pautado pela voz de um narrador que marca a passagem do tempo anunciando, para cada trecho coreográfico apresentado, o nome da obra, o ano de criação, e o teatro de estréia. Só a movimentação e a música das obras é transportada para o agora: muito dos efeitos que foram construídos colaborativamente em figurinos, cenários e adereços, por exemplo, ficam para trás, nas cenas complexas e cheias de simbologia da companhia. Nessa estrutura excessivamente limpa, parecemos nos encontrar numa conversa com o coreógrafo Décio Otero, relembrando momentos de sua carreira; mas o resultado cênico, com seus cortes secos, e desprovido dos acompanhamentos das obras, não tem tanto do carinho que costuma transbordar dos criadores, dos intérpretes, e do público do Stagium.

Inegável é o prazer de ver em cena, ainda que apenas em trechos, algumas das 80 obras dessa companhia. E a escolha de quais vem para a cena deve ter sido tarefa monumental. Incontornáveis, como Kuarup ou a Questão do Índio, Coisas do Brasil e Batucada acompanham obras que ilustram outras fases do projeto da companhia, como Adoniran, Tangamente e O Canto da Minha Terra, e é inevitável um sentimento de falta, de obras que não entraram no corte, como Diadorim, Quebradas do Mundaréu, Quadrilha, Old Melodies, Bossa Nova, Missa dos Quilombos, Mané Gostoso

A sensação de que falta algo não é demérito do espetáculo. Pelo contrário, ela atesta o tamanho do repertório da companhia e sua relevância. Mostra que o Stagium tem muito em sua história que vale a pena ver e rever, e afirma a insistência da companhia nesse seu momento de resistência e dificuldade. Ainda que paire sobre Memória o tom sombrio desse revisitar saudoso, complementa o programa a estréia de 2016, Preludiando, que vem mostrar aquilo que ainda há para ser visto e para ser feito pela companhia.

Longe do sombrio, Preludiando mostra Décio Otero em sua melhor forma: lírico, delicado, pungente. Organizada com os prelúdios da obra do maestro Claudio Santoro, Preludiando coloca o elenco da companhia em construções que se apoiam intensamente no outro, ao mesmo tempo em que revelam as capacidades pessoais: são duos, trios e grupos de leveza ímpar, que flutuam, que escorrem, que brotam, e, simultaneamente, afirmam a força de um bailarino, e a força ainda maior das parcerias que estabelecem em cena. No Stagium, criar, assim como resistir, tem sido atividade conjunta, fortalecida pelo todo, pelos apoios, pelas parcerias.

Aqui, vemos as linhas da coreografia de Otero, que extrapolam o clássico e se inspiram em outras formas, nessa obra pontuando intensamente um expressionismo marcado pelos movimentos agitados de mão que insistem em aparecer ao longo da coreografia. A estrutura cênica remete a uma aula de ballet, e seus movimentos vão progredindo em andamento, sem descanso e sem cansaço, até um allegro final. Não há espaço para o tédio, que poderia chegar com facilidade numa proposta tão lírica, de música tão calma, e de movimentos tão leves.

O que Décio Otero faz — e o faz e como ninguém mais o fez por aqui, é algo de neoclássico, que vem de fontes do ballet e parece intencionar os seus propósitos, mas que carrega referências outras para se alimentar e se construir. Particularmente relevante, porque há no mundo um grande público para esse tipo de dança. Sem o tom do cômico que aparece em algumas das obras mais recentes da companhia, e sem os temas pontuais que aparecem em outras, o que fica na cena é uma forma de poesia pura de movimento, como há muito não se via pelos palcos daqui, frequentemente ocupados com figuras, com cenas, com personalidades, ou com exclamações, gritos de guerra e palavras de ordem.

Em Preludiando, o grito do Stagium é dança. Sua resistência é sua arte. E num programa como o dessa temporada, é inevitável o entendimento de que essa arte vale a pena, e de que ela não é apenas um marco na nossa história, mas é uma força no nosso presente.

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No Centro de Referência da Dança da Cidade de São Paulo, a Companhia de Dança Siameses apresenta Jardim Noturno, obra criada originalmente em 2005 e refeita em 2010, na versão que segue no repertório, agora dançada por um novo elenco da companhia. Por trás de sua criação, estão várias das propostas que seguirão presentes no trabalho do coreógrafo, como as questões da formação e da transformação dos indivíduos, e do tempo.

No jardim de Maurício de Oliveira, crescem palavras, mais do que pessoas ou vegetais. De um vazio do início da obra brotam palavras, e seu crescimento desenfreado é o processo que domina a cena dessa obra. Retratando esse andamento, a luz de Jardim Noturno mostra um ambiente que está o tempo todo perceptível, mas que vai sendo progressivamente descoberto e desvendado. Esse ambiente trabalha com a materialidade da caixa preta do teatro e do palco para construir uma impressão inicial de vazio, que vemos recortado em branco por pequenas placas — como se fossem rodapés — que demarcam os limites de um espaço dentro do todo da cena. E esse espaço é o jardim.

Invadem o jardim três criaturas, em movimentos de pulsações que sugerem um germinar. Quase em silêncio, a obra é ambientada por um conjunto bem articulado de ruídos, que marcam a passagem do tempo, e a inserção desse espaço no mundo exterior a ele. Mas não se trata de silêncio, na verdade: há sonoridades várias, e é o sucesso do seu conjunto com o todo da peça que faz com que elas caracterizem o jardim, sem dominá-lo, com uma aura de silêncio noturno, vez ou outra rompido por um som inesperado, pra depois voltar a seu lugar habitual.

Feita essa primeira apresentação, se inicia um processo cênico em que o espaço se transforma em matéria, e as muitas placas brancas que formam esse rodapé contornando o jardim são manipuladas pelos bailarinos. Elas serão amontoadas, empilhadas, se transformarão em jogos de construção, e nos revelarão que escondem um texto, não exatamente lógico, mas sensível dentro de sua poesia. São palavras e pontuações, sozinhas e em pequenos grupos, que passam a ser manipuladas em cena pelos bailarinos. A um passo, essas placas delimitam os espaços, e a outro, ainda que vejamos a mesma quantidade de bailarinos e de placas todo o tempo, há um efeito de crescimento quase sufocante: nesse jardim, as coisas crescem desenfreadamente, se esbarram, convivem, compartilham, competem, se apoiam, mudam de rumo, caem, começam a crescer por outras caminhos, e assim por diante.

A dificuldade com Jardim Noturno é que as palavras roubam a cena, e se torna fácil ignorar dois bailarinos dançando para assistir a essa proliferação causada pelo terceiro; como resultado, o tema da obra parece mais calcado sobre a cenografia e sua intervenção do que sobre a movimentação em si. Esta, estruturada no micro das articulações do corpo, e das articulações entre os corpos, trabalhadas com sutileza e delicadeza, se opõe ao vigor quase violento da manipulação que se dá com as palavras. É um esforço e insistência de crescimento, como uma planta que vai achar um caminho para seguir.

Antes que as palavras dominem o espaço, há um duo de força que escapa da predominância mais rasteira da obra e navega por planos mais altos, com carregamentos leves nos quais, além do prazer da movimentação, encontramos um prazer inesperado na respiração dos bailarinos, numa qualidade e sutileza rara entre várias corografias atuais, tão marcadas por sons quase convulsivos de respiração. Nesse duo, vemos um crescimento orgânico diferente do resto da obra: aqui há algo que floresce, que frutifica, enquanto a maior parte da obra é marcada, sobretudo desse momento do duo para o final, pelo crescimento desenfreado, que também é orgânico — e talvez seja até mais natural que o outro — mas que cria matas cerradas, se fechando em torno do público, numa sensação de sermos engolidos pela vertigem desse crescimento.

É uma pena que as palavras não se articulem com os bailarinos. Parecem um acidente, parecem aleatórias. Um bailarino pega uma das placas e a mostra com um olhar intenso para os outros dois. Nada muda. Mostra outra, e tudo prossegue como era. Se por um lado é muito interessante que seja tão difícil intervir na continuidade dos bailarinos, por outro, com as palavras marcadas nas placas, ficamos à caça de mensagens. Seria um texto? Há algo nos sendo dito pelas palavras e suas combinações? Seria um poema acidental? O exercício em cena lembra formas de poesia concreta e digital, e uma palavra leva a outra, porém, sem uma precisão poética e um cuidado construtivo. Aqui, palavra esbarra em palavra, e o emaranhado de mato encobre entendimentos.

Talvez o jardim seja um jardim abandonado. Talvez seja um jardim sem jardineiro. E, por isso, talvez as palavras se percam em meio à vegetação que cresce e que tudo encobre. Talvez em algum momento no passado elas fizessem sentido. Talvez, com cuidado e muito trabalho pudéssemos adentrar nesse jardim e entender tudo aquilo que nele existe. Mas, mais que as possibilidades e dúvidas, a indagação que o Jardim Noturno deixa para o público é do que fazemos e deixamos de fazer, da forma como (nos) cuidamos, como (nos) cultivamos e como crescemos. Tal qual as plantas crescendo, a noite também tem seu tempo próprio — misterioso, quase secreto — e todo tempo tem uma força de ação, inevitável, sobre nós.

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