Pixel | Compagnie Käfig

Dois anos depois de sua criação, Pixel se aproxima de 200 apresentações pelo mundo. Criada dentro de um dos 19 Centres Chorégraphiques Nationaux (CCN) franceses, a partir do projeto de Mourad Merzouki, diretor da Compagnie Käfig, companhia-residente do CCN de Créteil et du Val-de-Marne, a obra segue uma linhagem que o coreógrafo tem desenvolvido desde antes de assumir essa residência em 2009, e que se identifica por um projeto de ampliação das danças do hip-hop a partir do contato e do trabalho com diversas outras fontes e estilos artísticos.

As práticas de dança contemporânea, de artes circenses, as artes marciais, as referências esportivas — todos esses, elementos que aparecem em Pixel — foram para essa nova criação expandidos por uma primeira experimentação com video-interatividade. O resultado, que tenta borrar as fronteiras entre a realidade material (que resiste no movimento), e a realidade virtual (abundante nas projeções que dominam a cena no espetáculo), investe na criação de um novo espaço para a dança e para sua percepção.

Seria simplista dizer que Pixel dialoga com elementos da cultura atual a partir de seu aspecto tecnológico. Não se trata exatamente desse tipo de interatividade: a obra mantém seu lugar no espaço cênico, sua delimitação enquanto aquilo a que assistimos. A interação que se contrói não se dá entre a obra e o espectador, mas entre os bailarinos e o espaço cênico, transformado em linhas de luz que parecem remeter a um percurso caleidoscópico por dentro de cabos de fibra ótica — ou, pelo menos, ao que poderíamos imaginar ser essa viagem.

Trata-se de um universo luminoso, criado pelas projeções de Adrien Mondot e de Claire Bardainne, que amplia as possibilidades do palco para um novo espaço, frequentemente distorcido, sobre o qual/ atrás do qual/ na frente do qual/ e com o qual os bailarinos dançam, entram em contato. A modificação do espaço através dos artifícios visuais não é uma novidade, e seus traços estão presentes ao longo de diversos momentos da história da dança, identificando algumas tendências que, inclusive, parecem determinantes da nossa experiência enquanto espectadores contemporâneos — em propostas tão significativas (e ao mesmo tempo tão simples) como o escurecimento da sala, por exemplo.

O que as projeções permitem avançar é a questão da percepção dimensional do espaço, que vai além dos limites da caixa-preta, e permite buracos, acelerações e interações dos movimentos executados pelos bailarinos com os movimentos criados pelos elementos visuais. Assim, por exemplo, uma coreografia com guarda-chuvas tem sua percepção potencialmente aumentada, com os efeitos das gotas de chuva que ventam na direção dos bailarinos, e que são desviadas pelo posicionamento preciso de seus guarda-chuvas.

Nesse sentido a obra se apoia em um posicionamento afinado, e não tanto no que seria de fato interatividade: os movimentos dos bailarinos não afetam a projeção, mas são cuidadosa e meticulosamente preparados e ensaiados para darem a impressão de serem interativos ou integrados. Isso não é um demérito da proposta, mas um risco para os discursos que se fazem sobre a obra. Em 2014, quando ela foi elaborada, não se falava tanto de realidade aumentada quanto atualmente, e a progressão incessante das tecnologias a que temos acesso pode, muito fácil e rapidamente, deixar a sensação de que algo tão próximo se torne rapidamente ultrapassado.

É por isso que aquilo que sobretudo se valoriza em Pixel é de uma outra natureza. Não que a integração dos bailarinos com as projeções não seja cativante. É. É o tipo de efeito que conquista e seduz plateias, que provoca aplausos em cena aberta, que lota teatros, que força sessões extra, e assim por diante. E na passagem desse espetáculo por São Paulo, encerrando a Temporada de Dança 2016 do Teatro Alfa, e em parceria com o programa France Danse: Brésil 2016, esse foi precisamente o caso. Porém, ainda que as projeções e a dança sejam bem integradas, e ainda que as projeções sejam interessantes, suas estruturas, ao longo de 1h20 de obra, ficam, por vezes, repetitivas, o que diminui essa noção de um universo tão amplo, tão sem limites, que se refaz repetidas vezes.

Há outros elementos bem pontuais que interessam o público. Um patinador, uma contorcionista, um daqueles bambolês gigantes com um acrobata girando e se equilibrando — todos esses elementos vêm complementar a dança, se articulam também com as projeções, e com os demais bailarinos da trupe. Porém, na terceira passagem da contorcionista pelo palco, já nos questionamos um pouco acerca dessa inventividade. Criar um universo que se diz tão amplo, e apresentá-lo a partir de uma série de estruturas que diversas vezes se repetem não é das melhores estratégias para a recepção, e a dado momento, acaba cansando o olhar.

Porém, nenhuma dessas questões diminui o valor principal de Pixel, que é justamente aquele do projeto de Merzouki para seu CCN. O que brilha, mais que as projeções, é o elenco, e, sobretudo, essa pesquisa, que tem um lugar de origem afirmativo e intensamente presente no trabalho — o hip-hop — porém desenvolvido a partir de contatos e de experimentações com outras referências. Esse conteúdo até extrapola a obra, e se transforma em agradecimento dançado, numa estrutura de demonstração das capacidades dos bailarinos dentro dos diversos estilos das danças urbanas. Porém, nesse momento, parece que mudamos completamente de chave. Abandonamos as projeções, os acessórios cênicos, as outras pesquisas; abandonamos até mesmo o palco, e os bailarinos descem para dançar sobre o fosso da orquestra. Curioso que numa pesquisa já longa como a de Merzouki, pareça necessário se distanciar do palco para dançar aquilo que vem tão naturalmente e com tanto gosto a seus intérpretes.

Trata-se de uma questão de afirmatividade, e de um questionamento: por que o espaço para essa dança é diferente do espaço para o que foi apresentado? Qual o impedimento, qual a necessidade dessa brusca mudança? Questionamento relevante porque colocar hip-hop no palco não é o projeto artístico da companhia, que se construiu e se afirma como uma forma de ampliação do hip-hop a partir de outras técnicas e referências. Mas, no que vemos em Pixel, temos muito do contato com as outras formas, e pouco da ampliação: mesmo o patinador e a contorcionista, por exemplo, não faziam parte do elenco da companhia, e a ela se juntaram justamente para esses números que realizam em Pixel. Essa característica de números distintos aumenta a percepção do espetáculo como uma estrutura circense, e que lembra em muitos momentos aspectos diversos do Cirque Nouveau, em si também uma proposta que — da mesma forma que propõe Merzouki acerca de Pixel — estaria num cruzamento entre artes.

Não está. Assim como a integração não é interatividade, a presença das múltiplas referências não garante a permuta entre elas; e a apresentação separada dos elementos somente reforça o entendimento de sua independência, não de sua interligação e interreferencialidade. Estamos num espaço de fronteira, de fato, mas com cada território com seus contornos ainda bem definidos, mesmo que haja possibilidades de trânsito. O que se espera, a partir de Pixel, é que essa busca pela construção de um novo espaço cênico alimente continuadamente a construção de um novo espaço de fronteira — um que permita mais relacionamentos, mais conexões, e que ultrapasse os limites do virtual (enraizado em propostas e projetos), e se realize frente ao público, na concretude do palco e da dança.

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