Para que o Céu Não Caia | Lia Rodrigues Cia de Dança

Lia Rodrigues encena um ritual num só momento atemporal — porque poderia ser de qualquer era — e contemporâneo — porque reflete momentos muito específicos de nossa sociedade, e situações de impotência e de desespero. Através do rito, surge uma esperança: somos ameaçados, mas é possível dançar. Dançar, para que o céu não caia.
Destaque da programação e sucesso de público da Bienal Internacional de Dança do Ceará de Par em Par, Para Que o Céu Não Caia é crítica nova do Da Quarta Parede.

É engraçado que, nos muitos contextos assustadores da atualidade, durante e após a apresentação, pensando sobre o espetáculo novo de Lia Rodrigues e seu título, eu tenha questionado, múltiplas vezes, por que motivos o céu cairia. Engraçado, e até irônico, porque certas situações — políticas, sociais, pessoais, nacionais, e assim por diante —, e suas repercussões, frequentemente nos passam esse sentimento intenso de desabamento, de destruição, de catástrofe. Mais que isso, um sentimento de insignificância e impotência, que repetidamente coloca indivíduos frente à dúvida: o que fazer para que o céu não desabe sobre nós?

A resposta que a companhia carioca nos dá é a de se reportar a uma função bastante tradicional da dança, usada como ritual, como experiência de vida a ser vivida e partilhada pelo grupo, unido e integrado pela realização do rito, que coloca em questão a articulação com o divino, com o incompreensível, com aquilo que está além das forças próprias de um ou de outro. A experiência estética dessa conexão é traduzida em cena através de um ritual, que inclui elementos de performance e de dança, e que parece feito para colocar o público dentro de um estado alterado de percepção.

Os bailarinos se colocam “em cena” com os rostos livres de expressão e de expressividade. “Em cena” é realmente uma expressão difícil para esse trabalho, que, apesar de usar recursos de iluminação para uma construção poética, aposta na integração espacial entre público e bailarinos. Não estamos num palco, mas num espaço quadrado, sutilmente limitado pela luz, e numa estrutura de mesmo nível — todos partilhando o mesmo chão, por onde os bailarinos transitam com potes pretos. Trata-se de uma preparação do terreno. Dado momento, todos eles se juntam em um dos lados do quadrado, e nos mostram que alguns dos potes contêm pó de café.

O pó vai ser usado para pintar e tingir todo o corpo dos bailarinos, numa situação inesperada, mas que dá continuidade à sequência: uma vez preparado o terreno, passamos à preparação dos indivíduos. Essa preparação vai se articular em longas cenas, que começam com o pó de café, e continuam com os bailarinos, nus e agora cobertos pelo café, se aproximando do público. Eles param na frente das pessoas, invadindo espaços pessoais e encarando, bem de perto, com a seriedade e a gravidade da situação, algumas pessoas da plateia. Vão passando de uma pessoa para outra, forçando a mobilização da massa do público, e transitando pelo meio deles. Não há sexualização dos corpos nus. Também não há diálogo, mas os olhares intensos parecem nos dirigir perguntas profundas, mesmo que elas não sejam colocadas em palavras.

Atravessam o espaço até chegarem ao outro lado, onde se inicia outro processo de pintura corporal, agora com um pó branco, seguido de nova, lenta e instigante, passagem pelo meio do público. Somos contaminados por essa estrutura muito além dos simples rastros que ficam nos corpos e roupas do público nessas passagens. O tom do solene paira sobre o espaço, e a movimentação dos bailarinos determina os nossos usos do espaço. Partilhamos o espaço com eles, mas também somos guiados, somos empurrados pela massa, não sabemos ao certo se assistimos ou se fazemos parte daquilo, se somos espectadores, testemunhas ou mesmo oferendas.

Sem pressa eles explorarão o espaço, suas travessias, seus deslocamentos, suas proximidades e afastamentos, numa manipulação indireta do público, do fluxo, do movimento, que cria um aspecto de instalação, de performance, que funciona na maior parte do tempo, mas, com o seu desenrolar, e algumas dificuldades de trânsito e de conseguirmos ver os bailarinos — o que talvez seja apenas resultado de uma platéia superlotada (a fila de espera por desistência de lugares tinha o mesmo tamanho que a fila de pessoas com ingressos) — acaba deslocando e desencaixando parcialmente a experiência possível, em momentos em que nos tornamos excessivamente conscientes do espaço e do público, abandonando todo o efeito cênico ritualístico profundamente construído pelos intérpretes.

Numa recuperação da conexão público-intérpretes, vem um segundo momento da obra, em que o público é redirecionado para as bordas do espaço e os bailarinos ocupam o centro da cena, agora sim com uma movimentação estruturada à semelhança de um coro ritual, e que parece ser a parte mais transformativa da cerimônia que nos apresentam. O movimento é grande e expansivo, e foca tanto o chão quanto os níveis mais altos, também tomados por braços e pernas lançados. Quase sempre em uníssono, domina um caráter de grupo, de integridade, como se aquela dança fizesse parte de uma experiência sócio-cultural repetida inúmeras vezes por eles, como se ela já se inscrevesse no profundo dos corpos dos bailarinos. Ainda que haja diversos solos em meio a essa longa parte conjunta, a separação de um ou outro indivíduo do grupo ao invés de enfraquecer o todo, o fortalece e valoriza.

Há outras intervenções visuais, como tinta vermelha, roupas, e, finalmente, um pó amarelo-alaranjado, atirado pelo chão da cena sobre o qual se realiza todo esse momento de comoção do grupo. E a processão dos movimentos continua à exaustão — dos bailarinos, mas também sentida pelo público. Apagam-se as luzes e o ritual se encerra. O céu não caiu. Não durante a apresentação. Continuará em seu lugar? E por quanto tempo? É difícil não sermos céticos depois do distanciamento dessa situação, que lembra um primitivismo, uma forma de religiosidade que muito da nossa sociedade já abandonou. Rituais para trazer a primavera, que, agora acreditamos (ou sabemos, ou acreditamos saber), vem independente dos sacrifícios serem ou não realizados. Cerimônias para que o céu não caia, mas ele cairia sem esses ritos?

Responder ao ceticismo da nossa sociedade frente ao nosso momento atual com um ritual é uma proposta corajosa e desafiadora. Apostar na força da integração do grupo através da manifestação dos corpos como resposta às dificuldades que atravessamos, é uma tentativa admirável. Seu resultado estético se sustenta tanto pela cena quanto pela reflexão que ela causa: o valor da obra está ao mesmo tempo nela própria — naquilo que presenciamos naquele momento — e naquilo que ela se pretende a fazer — sua proposta. Não trata unicamente de segurar o céu através do rito, mas de nos fazer pensar sobre ele, e de nos propor movimentos, tentativas de sustentação, e nos incitar a essas propostas, antes que seja tarde demais, antes que o céu realmente caia.

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Autor: Henrique Rochelle

Professor Colaborador do Departamento de Artes Cênicas da USP, Pós-Doutorando na Escola de Comunicações e Artes da USP, com pesquisa financiada pelo CNPq, Doutor e Mestre em Artes da Cena pela Unicamp, com estágio doutoral na Université Paris 8, e projetos financiados pela FAPESP, é Bacharel em Estudos Literários (Unicamp), e Especialista em Mídia, Informação e Cultura (USP). Foi Produtor do programa Dança: Encontros Notáveis, da Secretaria de Estado da Cultura (SP), fez parte de equipe de pesquisa na realização dos DVDs de aniversário de 45 anos e do livro de 50 anos do Balé da Cidade de São Paulo, foi supervisor do módulo de Formação Extensiva do PIRAPRODANÇA. Deu aulas de História da Dança na Graduação em Dança da Unicamp e no I Ateliê Internacional da São Paulo Companhia de Dança - com a qual também colaborou com uma centena de verbetes para a enciclopédia Dança em Rede. É Redator da Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira, e colabora com o Portal MUD, onde também é publicada a coluna 3ºsinal, toda 5ª feira.

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