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Arquivo mensal: agosto 2016

Lecuona é uma obra estranha para o Grupo Corpo. Primeiramente porque ela rompe com a tradição do Corpo de criar obras a partir de trilhas sonoras originais, e assinadas por compositores brasileiros, colocando em cena doze músicas do cubano Ernesto Lecuona, que empresta o nome à coreografia. Em segundo lugar, porque a obra se apoia na construção de duos e, mais que isso, duos que remetem à dança de salão, com toda a influência melódica da obra do compositor, possuindo apenas uma formação de grupo ao longo de toda a coreografia — uma valsa final, com os bailarinos de branco, e o fundo do palco, antes inteiramente preto, tomado por espelhos.

Esse tom kitsch se apresenta como uma imagem do passado, impressão aumentada pela estrutura da cena, que coloca os bailarinos no palco por detrás de uma tela, deixando-os com a impressão de serem projeções, fotografias, cuja progressão acompanhamos como se numa tarde vendo slides fotográficos e antigos álbuns de família. As histórias contadas, são, de certa forma, banais. Romances sem profundidade, apoiados pelas letras melosas, dolorosas e dramáticas das músicas da primeira metade do século XX.

O que há de interessante na obra é a chance de variabilidade para os intérpretes. Cada um dos duos, associado a uma música específica e a uma cor, apresentada pelos figurinos, oferece uma diferente possibilidade de interpretação. Mas essas figuras em cena, nos breves momentos que têm para se realizar, não conseguem se desenvolver muito a partir apenas da movimentação, dependendo intensamente das letras de música para a construção de entendimentos. Essa estrutura em si também é bastante incomum para o Corpo, que costuma nos apresentar obras que têm um tema fortemente desenvolvido e trabalhado em cena — e mesmo quando contam com as músicas para sua realização plena, parecem ser suportados, nos casos de maior sucesso da companhia, pelo movimento específico de Pederneiras em sua infusão com o assunto específico de cada obra.

Aqui, o que há de bastante específico são as possibilidades de técnicas de partnering, os carregamentos, levantamentos, sustentações, que se constróem em referência, tanto ao trabalho especificamente reconhecível do Corpo, como às diversas estruturas de danças de salão. Uma investigação que é interessante e que tem um efeito positivamente percebido, mas que, no formato dado, é bem mais rasa do que costumamos perceber nos trabalhos da companhia mineira.

A recepção de Lecuona é um fator interessante para se levar em conta. Nos 12 anos desde sua estréia, a coreografia já esteve presente em múltiplas temporadas. Em São Paulo, a mais recente antes da atual de 2016 foi a de 35 anos da companhia, em que o Grupo Corpo abriu uma votação para que o público escolhesse uma obra para rodar o país. Ou seja, há apenas 6 anos Lecuona estava por aqui e não pela primeira vez. Em si, essa rapidez de reciclagem e recuperação é também um choque. A partir do anúncio da Temporada de Dança 2016 do teatro Alfa, no começo do ano, esperávamos assistir à parceria de 21 (obra de 1992) com a última estreia da companhia, Dança Sinfônica (2015), ambas com música de Marco Antonio Guimarães. Ou, talvez, uma outra obra do repertório com mais relação corporal com Dança Sinfônica e o trabalho do Corpo como um todo.

Poderia se dizer que essa mistura funciona justamente pela diferenciação entre as obras, mas não é o caso, porque o programa não nos mostra dois lados do trabalho do Corpo. Ele mostra o trabalho do Corpo na obra mais recente — que reflete todo um histórico e uma tendência estilística —, e esse exemplo extra, inesperado, de Lecuona. E, ainda sim, a recepção do público para a apenas razoável Lecuona — que não está em nenhum patamar de grandeza do histórico da companhia — é surpreendente. Talvez mesmo até mais positiva do que a recepção de Dança Sinfônica. Mas pela razão pontual de que Lecuona, em um outro aspecto que foge dos padrões que nos acostumamos a encontrar no Corpo, é uma obra simplista.

Agrada porque é palatável, facilmente digerível. Tem a resposta imediata do melodrama das músicas, das roupas compreensíveis, da estrutura do duo, do apelo visual da valsa final. Em última instância, consegue dialogar sem nenhum problema com uma sociedade habituada à dança em estilo “dança dos famosos”. Se guiar pelo mínimo denominador comum parece um pouco decepcionante, sobretudo quando nesse pareamento com a obra feita para celebrar os 40 anos da companhia, que carrega tanto de história, de trabalho e de dedicação.

Talvez seja esse o maior problema com Lecuona, de uma perspectiva analítica. Não se trata de uma obra ruim. Não se trata, em nenhuma instância, de uma obra mal executada. O nível do trabalho do coreógrafo, dos bailarinos, e de toda a equipe, continua demonstrando a exuberância e excelência de sempre. Honestamente, é preciso mesmo observar que há dois ou três entre os duos que são brilhantes, além de brilhantemente executados. Mas há algo que falta nessa obra. Uma espinha, uma coluna. Uma sustentação que aponte para toda a profundidade e o cuidado que são empregados nas longas construções das obras do Corpo, e que, nesse caso, não são tão perceptíveis.

Lecuona é uma obra estranha para o Grupo Corpo. Não porque seja uma obra simples. A simplicidade é algo extremamente trabalhoso. Outras propostas da companhia, como, por exemplo, Sem Mim (2011), também não são de uma complexidade assombrosa. Mas, ao mesmo tempo, são de simplicidades que se articulam com uma profundidade de temas e de trabalho que mostram o seu esforço, a sua construção, e valorizam os seus resultados. E que, em Lecuona, ainda que mantenham o espetáculo, parecem mais rasas — jogo de espelhos e de luzes, que fascina a vista, mas não muito mais que isso.

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Criada para a comemoração dos 40 anos do Grupo Corpo, Dança Sinfônica volta a São Paulo para uma temporada, dessa vez acompanhada de Lecuona, obra de 2004 e uma das reconhecidas favoritas do público, já fiel, da companhia mineira. O caráter celebrativo perpassa pela obra em seus diversos níveis, desde a ocupação cenográfica do espaço, passando sobretudo pela música que Marco Antônio Guimarães compôs para a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, e desaguando nos movimentos da dança, que retratam o estilo do coreógrafo, tons específicos de diversas obras da história da companhia, e nos colocam em contato com esse projeto de longa duração que é a estética do Grupo Corpo.

Em veludo vermelho, as pernas do palco emolduram a cena, e atingem em cheio no torso das bailarinas, espalhando o emotivo tom de solenidade de Dança Sinfônica. Trata-se de um momento sério, entremeado pela alegria e pela leveza que também se fixaram como marcas da companhia mineira. A música retrata esse aspecto, intercalando às composições originais e evocativas executadas pelos 90 integrantes da Filarmônica, intervenções de integrantes do Uakti, que também nos mostram a cara — e o som — desse compositor já parceiro do Corpo.

Uma preferência pelo ríspido, pelo movimento contínuo, por duos e trios cujas formações são frequentemente inconstantes — se alternando na frente de nossos olhos —, e que mostram a aplicação de uma técnica de variação dentro do grupo: sistema reconhecível em diversas das coreografias de Pederneiras, que ocupa o olhar em múltiplas direções, e aposta frequentemente numa cena preenchida de elementos em diálogo ou oposição. Os bailarinos atravessam a cena em linhas que se desdobram, se transformam em outras linhas, apontando para outras direções. A unidade do conjunto é, há muito, um dos pontos fortes dos trabalhos que apresentam, carregando, como poucas outras companhias, uma perceptível qualidade de ensaio e de acabamento das obras — que são poucas, frente a certos esquemas atuais de produção em dança, sobretudo em companhias de repertório, mas que aqui remetem ao apreço pela precisão, pela qualidade artística, e pelo primor. Todos esses, marcas do Corpo.

Outras formas de marcas do Corpo são visíveis em Dança Sinfônica. Ainda que qualquer pessoa possa apreciar a qualidade do trabalho, sem nunca antes ter visto outra obra do grupo, aqueles que tiveram o prazer de acompanhar mais etapas dessa trajetória podem ligar os pontos das homenagens que se prestam sobre o palco. E nem se trata tanto da imagética do painel de fundo, ocupado por centenas de fotografias dos diversos elencos, obras, e artistas que se envolveram com esse grande e extenso projeto que é o Corpo: esse painel, disfarçado na penumbra durante a maior parte da obra, só é realmente apreciável, ainda que de longe, quando o espetáculo se encerra e vêm os agradecimentos (que são tanto dos bailarinos quanto do público).

Em um outro ponto de convergência, e com muito mais interesse, acompanhamos nas diversas danças que são colocadas em cena, referências a outras obras da companhia. Impossível não se contagiar com os braços e pernas que se lançam e parecem buscar e trazer de volta coreografias como Bach, 21, Parabelo e Triz. O espaço se risca e se preenche dessas referências diversas e múltiplas dos trabalhos da companhia. Apontam, mais que isso, para uma característica comum, um estilo coreográfico, um aspecto estético que percorre a obra de Pederneiras e que aqui mistura as menções pontuais às características contínuas, que delineiam aquilo que reconhecemos na história do Corpo e que se faz e se refaz nos trabalhos da companhia.

Essas muitas referências vêm ao palco como diversas vozes, como os diversos instrumentos da orquestra, que competem e se harmonizam em cena. Assim como o trabalho do maestro, o trabalho do coreógrafo de Dança Sinfônica é o de coordenar essas múltiplas possibilidades. Tal qual as mãos de um maestro, estabelecendo um pulso norteador, vemos no palco uma cena que se repete algumas vezes, pautando o todo da coreografia. Em sua leveza e lirismo, ela parece acalmar as diversas vozes que falam, e bem alto, durante as muitas danças. Trata-se de um duo, com a bailarina vestida diferente daquelas dos conjuntos, sem o veludo vermelho solene, e que flutua pelo palco, às vezes carregada, às vezes deslizando. Recolhida nos braços de seu parceiro, ela mostra o quando de sua força e grandeza é preciso para demonstrar essa fragilidade, essa delicadeza quase aquática que nos transporta ao mesmo tempo para outros duos de Pederneiras, mestre do lirismo a dois, sobretudo o duo principal de Sem Mim, mas que ao mesmo tempo carrega algo de continuidade, as linhas retas e quase severas da obra anterior do grupo, Triz, e nos seduz  apontando por aquilo que ainda está por vir.

Nesse sentido também se colocam as corridas dos bailarinos pela cena: nesse lugar de olhar pra trás e admirar tudo aquilo que já fizeram, eles parecem encontrar a força propulsora para seguir em frente, para o que quer que venha em 2017, ano em que esperamos nova estréia do corpo (que, de costume, faz novas criações em anos ímpares). Em questões de espera, nos acostumamos a esperar grandes coisas do coreógrafo: composições detalhadas e detalhistas, físicas e musicais, que mostram diferentes caras do Brasil em associações de bailarinos, cenógrafos, músicos, figurinistas, iluminadores, e tantos técnicos e artistas envolvidos na criação dessas sinfonias dançadas que se tornaram marca do Grupo Corpo.

Dança Sinfônica é um título verdadeiro, ainda que pouco potente. Na sinfonia do Corpo, os instrumentos são os corpos dos muitos artistas que se envolvem na produção; e a partitura dessa melodia, regida pelas mãos dos Pederneiras e por tantas outras que a eles se associam, é carregada de toda uma história de escritas coreográficas, compiladas, remodeladas, e recolocadas em cena, numa obra que olha pra trás, sem ser passadista; que aponta esses 40 anos pra falar sobre tudo aquilo que já se fez, sugerindo tudo aquilo que ainda virá.

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