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Arquivo mensal: dezembro 2015

John, obra de Lloyd Newson, diretor e coreógrafo do DV8 Physical Theatre, partiu de entrevistas desenvolvidas em uma sauna gay inglesa e faz parte de uma trilogia do anglo-australiano, que inclui To Be Straight With You e Can We Talk about This?. As entrevistas revelaram experiências de diversos indivíduos, e a história de vida de John foi escolhida como o foco da criação de 2014, apresentada recentemente no Festival D’Automne de Paris, no La Villette — criando um diferencial das outras obras partes da trilogia, que tratam de múltiplas histórias.

Com o foco narrativo claro, um enredo preciso, e os bailarinos apresentando todo um texto que encaminha a história, John insiste em beirar as discussões das propostas de teatro-físico e dança-teatro, numa produção que mescla diferentes gêneses de criação de formas artísticas e propõe um resultado misto: algo entre teatro-feito-por-bailarinos e dança-feita-por-atores. O corpo é usado como um instrumento que vai além do texto e da presença cênica mimética: a representação não tende a um realismo, não vemos o que se passa como um quadro figurativo da história de John. Sobre o palco, a cena se desenvolve como uma paráfrase ou uma alegoria ao texto, completando-o não por nos oferecer as dinâmicas que veríamos se assistíssemos àqueles eventos quando aconteceram, mas por nos sugerir possibilidades de dinâmicas internas, de relações dos corpos que viveram aqueles momentos.

O cenário, uma estrutura modular apoiada numa plataforma circular que gira quase constantemente, vai sendo manipulado ao longo das cenas, de forma que, a cada vez que entramos em um novo espaço narrativo, entramos também em um novo espaço físico e visual. Diversos cômodos de diversas casas, e as muitas partes da sauna, vão criar um espaço que se transforma ao longo de toda a obra. Da mesma forma, John vai se transformando. De sua infância conturbada, passando pelas drogas, os relacionamentos,  seu envolvimento com crime, suas práticas sexuais, o HIV, e também a sua homossexualidade, até chegar ao momento da entrevista, representada com inclusão da voz gravada do indivíduo cuja história inspira a obra, e a menção de que todas as falas foram tiradas diretamente de entrevistas concedidas durante a longa pesquisa do processo de criação. É assim que, progressivamente, a narrativa de John se desenrola em cena.

Os corpos dos intérpretes, o tempo todo ativos e em movimento, não desenvolvem exatamente estilos reconhecidos de dança, salvo raríssimas excessões. Ao invés disso, a pesquisa corporal mostra um trabalho de tônus, tensão e controle, que se desenvolve a partir de movimentações associativas, frequentemente induzidas pelos demais indivíduos em cena e que ultrapassam o corpo de cada um dos 9 intérpretes. A partir de movimentos pedestres e cotidianos, a exploração das qualidades do corpo durante a execução desses movimentos cria um espaço de diálogo de dança, que reafirma uma associação do teatro físico com a dança-teatro, e sugere como resultado uma criação de uma peça teatral, mas uma peça teatral para ser feita por bailarinos.

O trabalho com os temas apresentados reflete a violência da vida de John. No todo, a obra é de uma crueza que beira o obsceno, que compele reações fortes, entre cativar e horrorizar a platéia. São assuntos e apresentações que não costumam ser tratados assim tão em claro. São tópicos que fazem parte do cotidiano de uma parte da população, mas que são frequentemente disfarçados ou escondidos. John não tenta velar ou disfarçar nenhum sentimento, nenhum impulso, nem nada que possa ser percebido como imoral. Estamos em um patamar que vai além do julgamento. A sinceridade da personagem e o tratamento quase despojado da vida lembram Jean Genet — o escritor francês que Sartre chamou de Santo, reconhecido por tratar de ladrões e “degenerados morais” com um tom humanizador, com uma característica de liberdade e de gênio que seriam, segundo o filósofo, não um dom, mas um caminho criado por eles para escapar do desespero.

É assim que John transparece em cena. Sua sinceridade crua soa como um traço de inocência, refletido em seu desejo por companhia e companheirismo, e na busca, quase sempre malfadada, pelo outro, sobretudo no espaço da sauna em que grande parte da história se desenrola, entre muitas drogas e sexo casual. Esse tratamento da personagem reforça as discussões de moralidade. Se por um lado é simples decidir que ele estaria simplesmente errado, por outro há algo que atrai, há algo que dá um pouco de pena, e, sobretudo, há algo que cativa.

Parte dessa coisa que cativa é o que transpassa nos movimentos e na dança de John. A capacidade ginástica dos intérpretes, o treinamento físico intenso de preparação corporal, a casualidade com que os movimentos são executados lembram ao mesmo tempo as tendências do Clássico de realização sem esforço aparente, e a característica expressionista de uso do movimento não representativo para a criação de uma qualidade perceptível pelo público: os movimentos não insistem em significar uma ou outra ação, necessariamente — na maior parte do tempo, eles compõem uma imagética em ação, e criam um tom que pode ser entendido como interior, como as tensões e intenções escondidas pelos corpos durante as suas ações.

Nesse conjunto de reações e respostas, John se constrói como uma abertura para diálogo de um assunto sobre o qual não se fala, ou não se deseja falar — e, nesse aspecto, parece uma provocação. Porém, ao mesmo tempo, com a delicadeza e a humanização que a história traz para esses espaços, indivíduos e situações inesperados, o convite para a conversa fica mais difícil de ser ignorado. Podemos condená-lo, mas John continuaria sendo um condenado simpático. Ele pode ser tido como um degenerado, mas continuaria sendo um degenerado gentil. Além do bem e do mal de seus atos e de sua história, John se abre, sem pedir licença, sem pedir desculpas.  Entre o desprevenido, o surpreso e o encantado, o público o acolhe e lhe responde.

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