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Arquivo mensal: setembro 2015

Aos 50 anos, Sylvie Guillem decide se aposentar dos palcos, e deixar a carreira de 39 anos de bailarina, com uma longa turnê de despedida. Um ano, mais de quinze países, e quatro coreografias dentro de um espetáculo. Seleções precisas que marcam um evento na história da dança. Em setembro, no Théâtre des Champs-Elysées, Guillem abriu a temporada 2015/2016 de dança parisiense, se despedindo da cidade onde começou sua carreira, toda marcada de grandes pontos.

Aos 19 anos, Sylvie Guillem foi promovida a Étoile da Opéra de Paris, maior rank dentro da companhia, estabelecendo ai um record: a mais jovem Étoile de todos os tempos. Isso foi em 1984, quando ela dançou o seu primeiro Lago dos Cisnes, do então diretor Rudolph Nureyev, depois de apenas cinco dias na posição de Première Danseuse, posição imediatamente inferior à de Étoile. A bailarina foi instantaneamente reconhecida pela sua flexibilidade e elasticidade, com seus développés de extensão completa e abertura chegando (e até ultrapassando) os 180º, nunca antes vistos.

Quatro anos depois, quando a direção da Opéra recusa o pedido de Guillem para dançar no exterior, ela deixa a companhia, sendo recebida como Principal Guest Artist do Royal Ballet de Londres, sob a direção de Anthony Dowell, que rapidamente lhe deu o apelido de Mademoiselle Non, num comentário sobre as frequentes recusas da bailarina. Essas recusas marcam o perfil de toda a sua carreira: o de se tornar consciente e responsável por suas escolhas — motivo principal de deixar a Opéra, mas também de causar escândalo ao receber o Prêmio Nijinsky de melhor bailarina em 2001 (quando, durante o  seu discurso na homenagem, declarou que esse tipo de premiação é negativo para a dança por criar uma impressão de que bailarinos são produtos de supermercado).

Suas fortes escolhas continuam marcando sua carreira até a última reverência, tida por muitos críticos como apressada. Ainda muito capaz de dançar, Guillem decidiu parar enquanto ainda tem orgulho e proveito naquilo que faz, escolhendo quatro coreografias para compor o seu programa de despedida. Essas quatro obras marcam coreógrafos relevantes da carreira da bailarina após seu afastamento do clássico — que começa com Forsythe coreografando In the Middle, Somewhat Elevated no último ano em que ela esteve com a Opéra de Paris.

Na última década, Guillem se dedicou à carreira em dança contemporânea, comissionando obras de diversos coreógrafos. São eles que — junto de Forsythe — ela escolhe homenagear em sua temporada de despedida. O programa não tem seleções de o melhor de sua carreira, e expressa, desde seu título, uma vontade de continuar a explorar a dança.

Criada para essa temporada, a primeira coreografia, technê de Akram Khan mostra um pouco do contato de Guillem com o coreógrafo e as raízes do kathak indiano, que compõem o estilo de Khan. Um intenso trabalho no chão, dentro de um círculo de luz que rodeia uma estrutura metálica iluminada, parecida com uma árvore, um pouco maior do que a bailarina: surgem metáforas da árvore da vida, da mariposa atraída pela luz, e tantas outras que, alimentadas pela micro movimentação — orgânica, mas de algum organismo diferente do nosso — fazem questionar essa criatura.

O ritmo percussionado, com música realizada ao vivo no palco, incentiva o movimento que tende ao chão e à terra, mas, ao mesmo tempo, a iluminação projetada sobre o palco parece sugerir que a cena se passa na lua. Aqui, temos uma composição de imagens fortes que despertam sensações diversas, mas pouco direcionamento interpretativo. Ao mesmo tempo em que a bailarina parece um animal, temos a impressão de que ela cria raízes, cresce e perde suas folhas pela cena. É difícil não tentar analisar tudo o que aparece numa temporada de despedida como uma despedida em si, sobretudo nesse caso, quando temos um pouco do feedback do coreógrafo sobre a obra sugerindo que ela trata do estabelecimento de conexões.

Ao pensar num paralelo com a carreira e filosofia de vida de Guillem, é possível traçar uma análise de suas preocupações com a natureza, com os animais e com o planeta, mas, independente da proposta representativa, ou significativa, permanece a demonstração intensa da qualidade do trabalho da bailarina, já reconhecida por sua grande expressividade, que não dá — aqui — sinais de diminuir.

A segunda coreografia do espetáculo, um Duo de Forsythe, criado em 1996, e aqui remontado para o Life in Progress, é a única obra do programa que não é dançada por Guillem. A construção do movimento, bastante intelectualizada, parte do funcionamento de um relógio, com os dois bailarinos trabalhando como ponteiros: ainda que separados, com funções interligadas, que se afetam. Os dois bailarinos, convidados da The Forsythe Company, vêm apresentar uma relação com o movimento que marca um momento de virada na carreira de Guillem: a criação de In the Middle é frequentemente tida como um propulsor para a vontade da bailarina de explorar possibilidades para além daquilo que era então praticado na Opéra de Paris.

Uma terceira convidada está presente no programa: Emanuela Montari, do La Scala, que dança com Guillem o duo Here & After, de Russell Maliphant para esse programa. O coreógrafo inglês tem bastante de sua fama associada a sua ligação e trabalho com Guillem, e a escolha que ele faz para essa composição é a de colocar em evidência suas experiências passadas com a bailarina, evocando um contraste que é bem esclarecido pelo movimento e pela luz.

A iluminação de Michael Hulls cria múltiplos espaços no palco, delimitando e desenhando a cena, permitindo sua constante transformação, em diálogo com a exploração do movimento. Porém, no todo, há uma grande disparidade — possivelmente entre a coreografia criada para cada uma das intérpretes — que destaca Guillem e faz Montanari quase desaparecer, ainda que não haja, da parte da italiana, menos qualidade de movimento e execução. Não há um assunto pontual, mas, se a reflexão do coreógrafo é sobre a sua experiência com Sylvie Guillem, parece que a conclusão a que o público pode chegar é que, perto dela, as outras bailarinas desaparecem — mensagem um pouco negativa para um momento de aposentadoria, e um pouco incômoda para assistirmos a essa segunda pessoa, colocada lá para desaparecer.

Depois de um intervalo, a obra final do programa, a já consagrada Bye, que Mats Ek criou para Guillem em 2011, vem discutir o tom de despedida e de continuidade que a turnê toda carrega. Quase épica, essa obra de transformação mostra um percurso individual, que pode ser associado ao percurso da bailarina. O movimento proposto por Ek trabalha as longas linhas das quais ela é capaz, e as interrompe com a energia quase brutal que o coreógrafo frequentemente retrata.

Forte, a personagem de Guillem parece crescer em cena, de uma menina para uma mulher, e sem limites para suas capacidades, demonstradas em feitos de força. Ao final da obra, quando ela, já transformada, deixa o palco olhando para trás como se numa despedida, encontramos o melhor momento no programa da capacidade de relacionamento de Guillem com o público — capacidade elogiada ao longo de toda sua carreira. A coreografia termina porque, aparentemente, a personagem chega, faz tudo aquilo que tinha para fazer no palco, e decide continuar, em outros espaços, em outras histórias. Fica um encerramento quase antológico para uma turnê de despedida.

Frequentemente tida como sóbria e pragmática, Guillem pareceu ser levada pela onda de comoção do público, que a aplaudiu por quase meia hora, entre choro, flores e homenagens. Havia algo de grande a ser testemunhado naquele momento. Algo que carrega um jeito de fim: um término de um aspecto, de uma carreira, uma despedida dos palcos, mas, no todo, uma forma de continuidade. O título do programa já nos sugere uma importância frequentemente esquecida, e contra a qual Guillem parece se erguer mais essa vez: a necessidade de ver bailarinos para além de seus corpos-de-trabalho, e  ver suas vidas para além de suas carreiras. Em cena uma última vez, Sylvie Guillem nos mostra, não os melhores momentos de sua carreira, mas os lugares onde a dança a fez chegar. Não o conjunto de um obra concluída, mas os mais recentes resultados de um work in progress.

LIFE IN PROGRESS

SYLVIE

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