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Arquivo mensal: abril 2015

O programa misto do L.A. Dance Project, em sua terceira temporada anual no Théâtre du Châtelet, coloca em cena e nos corpos bem treinados dos bailarinos desse coletivo três coreografias distintas, alimentando a proposta do jovem grupo de associar criadores de renome e novos talentos ao seu repertório.

A companhia, fundada em 2012 por iniciativa de Benjamin Millepied, também atual Diretor de Dança do Ballet de l’Opéra de Paris, mantém um pequeno grupo de bailarinos e constantes criações e remontagens de convidados como Forsythe, Cunningham, Emanuel Gat e Justin Peck, além das obras frequentes de Millepied. A atual temporada parisiense traz estreias de Sidi Larbi Cherkaoui e Roy Assaf, além de mais uma coreografia de Millepied.

Harbor Me, de Cherkaoui coloca os bailarinos num estranho espaço de porto, e articula o a temática do porto enquanto espaço físico e sua função de proteção e abrigo, refletida na interação dos bailarinos. Uma coreografia progressiva, coloca em cena inicialmente apenas um bailarino, depois juntando a ele um segundo, e na sequência o terceiro, passando, nas partes seguintes, a usar essas quantidades e variações para uma exploração de possibilidades de sustentação. Enquanto o bailarino sozinho fica quase que permanentemente preso ao chão, em dupla é possível criar articulações de ação e reação, e em trio surge a possibilidade de rede, com os bailarinos se erguendo e trabalhando em movimentos associativos e explorando mais dos planos mais altos, em apoios conjuntos.

A questão dos apoios parece central a Harbor Me, discutindo em permanência o que sustenta, o que abriga e o que prende. Os movimentos cadenciados, os suportes, as dinâmicas construídas em conjunto na coreografia, não são elementos estranhos à obra de Cherkaoui, mas aqui aparecem trabalhados com uma fluidez ímpar. Aqui, um dissolve no outro, chama o outro e pede abrigo. E o tônus muscular mais tenso, que suspende os movimentos dentro de sua execução, causa uma impressão quase líquida, ou de estados físicos diferenciados. Com a cenografia, um linóleo pintado dando a aparência de tábuas envelhecidas, e um pano de fundo, içado durante a cena como uma vela, mostrando uma imagem sutil com postes de madeira, que remetem ao local evocado pelo título da obra, somos colocados nesse universo de fronteira entre o marítimo e o terreno.

Outras possibilidades de fronteira são exploradas em II Acts For The Blind, coreografia de Roy Assaf para o grupo: aquelas da compreensão e da atribuição de sentido. Dentro de um quadrado demarcado no palco, e em alguns pontos de concentração ao redor desse quadrado, num primeiro momento os bailarinos exploram movimentos quase banais em sequências curtas e dissociadas, seguidos por uma trilha sonora leve. Na segunda parte da obra, as mesmas sequências são repetidas, porém com a presença de um narrador em cena, que, num microfone, descreve as ações dos bailarinos-personagens, criando um enredo que preenche os gestos anteriormente banais com sentidos pontuais.

Esses sentidos, apesar de parecerem diretos, até rasos, como que miméticos das ações que se apresentam, forçam uma inteligente reflexão sobre as maneiras de comunicar da dança. A mesma movimentação, nesses dois contextos díspares – primeiramente  apenas acompanhada por uma música calma, e na sequencia trabalhada a partir de falas descritivas – mostra a diferença entre a comunicação através da fala e a comunicação através da dança. A dança apresentada, quando descrita, passa a ter seu significado delimitado pelas palavras, ao passo que, quando apresentada sem essa interferência dominante, produz mais sugestões do que conteúdos específicos.

As funções da linguagem estão em jogo. O modelo do narrativo, com seu foco em transmitir uma mensagem delimitada contrasta com o modelo poético, e seu foco em apresentar possíveis articulações entre formas e conteúdos. Aqui, ficam em contraponto aspectos que são da linguagem da dança desde suas raízes, como narratividade e sugestão, descrição e exploração. A característica pós-moderna dessa obra é colocar em cena, juntas, essas duas possíveis articulações. Sem uma valorização de um modo ao outro, o coreógrafo chama a uma reflexão sobre possibilidades e comunicabilidade.

Se esse aspecto de pós-modernidade pode sugerir um tempo passado, a última obra do programa, Hearts And Arrows, de Benjamin Millepied, parece se ligar diretamente a outros tempos. Ao mesmo tempo em que é perceptível uma aproximação visual e sonora com os anos 1980, também estamos pontualmente em uma reflexão sobre um outro passado: a coreografia é a segunda de uma série (Gems) que Millepied concebe a partir de uma homenagem a Jewels, de George Balanchine, coreografia que faz parte de seu próprio repertório enquanto intérprete, de quando dançava no New York City Ballet.

A cenografia de Hearts and Arrows traz um palco quase nu, chamando a atenção para os elementos de um teatro, suas luzes e estruturas, e o trabalho de movimentação, alternando entre os pequenos grupos e a movimentação em solos, numa estrutura fragmentária, outro elemento bastante marcado de épocas passadas, com pequenas sequências coreográficas, bruscamente interrompidas. Os melhores destaques de Hearts and Arrows ficam nos trabalhos de conjuntos que o coreógrafo faz, e que colocam a obra dentro de um contexto nesse programa, ao lado das demais obras apresentadas, mas, sobretudo, dentro de um contexto para a companhia.

O lugar-comum é um espaço que fica beirando Hearts and Arrows, por exemplo, com a música de Philip Glass, que o próprio coreógrafo sugere ser bastante reaproveitada em dança, mas que, se pensada como um apontamento, uma flecha na direção dos anos 1980, tem um pouco mais de sentido do que a causalidade da trilha sonora original comissionada para essa obra não ter ficado pronta a tempo. Com esse grupo pequeno de bailarinos, Millepied consegue sair dos lugares-comuns mais frequentes de seus duos,  e ainda evitar as dificuldades na criação para grupos maiores.

O tamanho da companhia é, mais uma vez, seu grande trunfo. A proximidade entre os bailarinos, suas capacidades e ótima interação criam um grupo bastante capaz de realizar aquilo a que se propõem, se apropriando de grandes nomes tão bem quanto dançam criações originalmente encomendadas para eles.

Com o novo trabalho de Millepied junto da Opéra de Paris, fica pendente a questão dessa dupla associação, de quanta dedicação vai ser possível destinar a cada companhia e de quais os bons ou maus resultados que essa vida dupla pode trazer. Mas, até o presente momento, os melhores resultados do trabalho de Millepied continuam bem demonstrados no L.A. Dance Project 3.

L.A. Dance Project

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