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Arquivo mensal: março 2015

Empty Moves, coreografia de Angelin Preljocaj para sua própria companhia é um desafio, tanto por sua execução quanto por sua compreensão. A exploração dos movimentos dissociados exige grande precisão, aliada a um senso tempo-espacial aguçado – tanto dos bailarinos quanto do público -, que não são, em nenhum momento, ajudados pela trilha sonora da obra: uma intervenção de John Cage sobre o texto de Henry David Thoreau, A Desobediência Civil, publicado pela primeira vez em 1849.

Sem música, a obra de Preljocaj distribui continuamente em quase duas – agonizantes – horas três partes, criadas entre 2004 e 2014. Ao longo de todo o tempo, a voz de Cage, gravada em sua apresentação no Teatro Lírico de Milão, em dezembro de 1977, distorce em fonemas o texto de Thoreau, criando uma forma de poesia abstrata sonora. Particularmente relevante para o registro, são as intervenções que o público do evento causa sobre a apresentação de Cage, com gritos, aplausos e vaias, reclamações, defesas de sua proposta, entre tantas outras reações, que não interferem naquilo que Cage continua fazendo.

Essa gravação, chamada de Empty Words, é a partitura que acompanha os Empty Moves de Preljocaj. E aqui, um segundo desafio, este para o público, de acompanhar tamanho agrupamento de desassociações. Sem melodia, sem enredo, sem um fio que suporte os movimentos, somos provocados a acompanhar o trabalho.

O coreógrafo aponta os elementos de seu processo criativo como indo de encontro daquilo que está proposto também no texto que inspira as Empty Words de Cage. A desobediência civil, o não conformismo com as leis e regras que regem a sociedade, é um método de resistência social, uma elaboração performática de ações insurgentes contra aquilo que seria naturalmente obrigatório para um indivíduo.

Em matéria coreográfica, como transformar um espetáculo de dança em uma forma de resistência, transgressão e desafio? A resposta de Preljocaj reside, sobretudo, em trabalhar sobre seus próprios métodos criativos. Aquilo que estaria habituado a fazer, a construção e articulação que lhe parecem lógicas das frases coreográficas passa a ser, em Empty Moves, um processo em subversão.

O intuito aqui é o de desarticular a estrutura pronta. Os procedimentos levados a cabo apontam, simultaneamente, para o Moderno e para o Pós-Moderno. Muito dessa obra de Preljocaj vem com uma ligação quase direta com elementos propostos pelos grupos experimentais da pós-modernidade, como o uso de roupas cotidianas como figurino, o abandono da música para a construção da dança, e a exploração dos corpos que remete diretamente a técnicas de improvisação e a movimentos que mesclam a formação técnica tradicional dos bailarinos com as características do cotidiano, do ready-made, do movimento natural.

Ao mesmo tempo, os bailarinos de Preljocaj não estão, em cena, improvisando. Estão reapresentando uma estrutura coreográfica milimetricamente determinada, construída cuidadosamente para oferecer uma impressão de acaso, mas que demanda precisão, ensaio e repetição exaustiva. Construindo seu espetáculo como se fosse parte das vanguardas modernistas, o coreógrafo volta ainda mais no tempo, e, se as suas propostas diferem consideravelmente daquelas mais facilmente identificadas nos grandes trabalhos da dança moderna, elas muito se aproximam das modernidades literárias, como a poesia concreta e dadaísta, e das modernidades das artes visuais, como o cubismo.

Articulando, agora, a um só passo essas duas referências passadas de modernidades, Preljocaj coloca em cena o que alguns teóricos pontuam como a Transmodernidade -tempo atravessado de moderno, pós-moderno e contemporâneo. O resultado final fica entre o discutir o presente e o levar ao passado. Ainda que seja possível apontar para a reflexão que o coreógrafo constrói sobre a dança em seu momento atual, e sobre suas próprias formas de criar dança, Empty Moves deixa um intenso gosto de anos 1980 no espectador. E, nesse ponto, a voz de Cage, ressoando por toda a obra, não ajuda a atualizar o que é proposto.

Testando os limites da construção coreográfica, Empty Moves coloca em cena novos procedimentos de pós-modernidades, e a sua principal característica de atualidade, curiosamente é precisamente a mesma característica de novidade que a obra poderia ter há três ou quatro décadas: questionar o que é necessário em uma obra de dança.

Como em toda forma intensa de questionamento, existe aqui um risco inerente: a incompreensão. Assim como o público de Cage, no momento de sua performance, reagiu de diversas formas, inclusive abandonando a apresentação, parece difícil imaginar uma apresentação de Empty Moves que seja assistida integralmente por toda a sua plateia. Os casos de pessoas que abandonam a obra, seja a dez minutos depois de seu início ou a dez minutos antes do seu fim, parece tão bem organizado que se constitui um espetáculo à parte.

Assim como as interferências do público de Cage passaram a fazer parte da obra sonora registrada, as interferências do público em Empty Moves também integram a obra. Não é gratuitamente que Preljocaj deixa a plateia, não no escuro, mas numa penumbra, de forma que é possível assistir claramente a todas as reações que os Empty Moves provocam, da curiosidade ao incômodo.

Relacionar essa obra com as demais obras do coreógrafo, mesmo considerando apenas aquelas que foram feitas no mesmo período, resulta em comparações ainda mais chocantes. Todo o gosto pela dança musical, ritmada, frequentemente narrativa – ou pelo menos com uma ideia de enredo demarcada – do coreógrafo, aqui são esvaziados pelos seus procedimentos de dissociação. Provocação interessante, mesmo que não inédita, mas que mostra a força que ainda possuem diversos dos elementos apontados já há algumas décadas, forçando a reflexão sobre o quanto a dança mudou, e o quanto a dança permanece a mesma.

O desafio de colocar esses elementos todos em cena não é pequeno. Mas também não é maior do que o desafio de tentar receber, pela cena, esses mesmos elementos. A reação mista do público, do interesse ao esvaziamento do sentido da obra, depende de diversos fatores que influenciam os vários indivíduos que a ela assistem. Mas depende, sobretudo, da disponibilidade e do interesse em formas de dança que vão além do entretenimento e valorizam a discussão. Em Empty Moves, a discussão de Preljocaj é profunda, mas discorrida atrás de vazios. E ainda que seus movimentos sejam esvaziados, sua obra se mostra plena de conteúdos.

Empty Moves I II III