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Arquivo mensal: outubro 2014

O limite entre memória e invenção é testado por Akram Khan em Desh, solo de 2011 do bailarino e coreógrafo inglês, que discute a aproximação (e seu afastamento) de Bangladesh, terra natal de seus pais, ameaçada atualmente pela submersão, com o aumento do nível das águas do mar. Em cena, essa pátria – o título da obra, Desh, também significa pátria em bengali – é buscada pelo coreógrafo a partir de um processo de construção de memórias. Construção, pois não se baseia estritamente em fatos ocorridos, contando com a invenção de personagens e de situações para apresentar, através da cena, lembranças possíveis, que são articuladas em torno do pouco tempo que resta a Bangladesh, ao pai fictício (a personagem-pai) de Khan na obra, sua sobrinha fictícia e a sua própria pessoa ficcionalizada, entregue em cena num trabalho íntimo, através do qual o público tem um vislumbre de algumas construções afetivas – reais e inventadas – do criador.

Khan, que declara ter sempre se afastado de Bangladesh (fisicamente e, também, psicologicamente, enquanto identidade), ao ser deparado com a possibilidade de inexistência desse lugar – Bangladesh seria um dos primeiros países a ser engolfado pelo aumento do nível do mar – cria uma obra que apresenta uma saga inserida na jornada Europa – Ásia, onde se constrói a identidade do coreógrafo e intérprete: uma antologia identitária projetada para a interpretação solo, mas que conta com uma grande quantidade de colaboradores.

A equipe multipremiada reunida para o desenvolvimento de Desh conta com um grande apoio de produção, que elabora histórias, projeções, iluminações, cenários, animações que interagem com o bailarino, vozes, dramaturgias e um amplo processo de sonorização que permite colocar o público nesse espaço de entre: vemos as histórias em um meio do caminho que é ao mesmo tempo as terras e pátrias de Khan (e de tantos outros indivíduos), suas memórias e sua mente. A cena se desenvolve num espaço metafórico que constrói um lugar-identidade a ser buscado, questionado a partir do acesso que é oferecido aos diversos elementos cênicos, que convergem a uma ideia de resgate.

Em uma das cenas, quando o palco é engolfado por faixas que descem, verticais, presas às varas do teatro, temos Khan também pendurado e balançando entre elas, em uma imagem que ilustra bem a referência da história retratada como pregada no corpo e no mar, que espalha, mistura, e unifica a confusa identidade discutida pelo criador. Narrativamente, os contos das lembranças são misturados aos contos da tradição, que o bailarino apresenta a uma personagem presente apenas pela voz e pela representação que o corpo do solista dela nos dá.

Visualmente, há um amparo de uma quantidade grande de aparatos, estruturas e projeções – narrativas visuais interativas com as quais Khan dança para contar a história de Desh. História, porque existe algo iminentemente narrativo na obra, ainda que não haja uma linearidade, ou mesmo um enredo, em seu sentido estrito. Tampouco existem, estritamente, noções de verdade entre aquilo que é retratado – a biografia se carrega de invenção para mostrar não precisamente aquilo que é, os fatos que foram e que são, mas aquilo que a mente é capaz de fazer com os fatos.

Do diálogo no início da obra já é perceptível a pessoa perdida, o Akram-personagem confuso entre onde está e onde deveria estar; confuso, nos diálogos com o pai-personagem, entre aquilo com o que ele próprio se identifica e aquilo que é a sua herança cultural; confuso, nos diálogos com a sobrinha-personagem, entre aquilo que é a sua realidade, aquilo que é apreendido pela menina, e aquilo que está a contar a ela. São muitos os níveis da mente que se articulam nesse obra, assim como são muitas as construções visuais, sonoras e narrativas, que se encaixam em procedimentos de colagem, mais do que de sequências amarradas: nesse trabalho, a unidade é o indivíduo, o um em cena e sua movimentação.

A movimentação de Khan – ao longo de suas obras – é um ponto interessante para a discussão da identidade, que aprece em Desh. Enquanto o coreógrafo declaradamente se posiciona como alguém que fugiu de se entender como fazendo parte desse universo (o pesquisado para essa obra), a sua movimentação particular há muito é elogiada pontualmente pelas referências dessa mesma identidade da qual ele se afastou, transpassada no corpo pelas raízes do Kathak indiano, mescladas ao seu treinamento moderno inglês.

Porém, essa aparente cisão só vem aumentar o entendimento proposto por Desh, a existência dessa tradição manifesta no indivíduo e que compõe a sua história (real e fictícia, factual e imaginada, presencial e psicológica, individual e coletiva, tradicional e pessoal), consciente e inconscientemente. Ameaçado pelo levante das águas, Bangladesh cobra de Khan que seja lembrado, que seja descoberto e reconhecido, antes de estar submerso – tal qual o próprio coreógrafo está submerso em outra(s) cultura(s). Uma ideia de lugar, a pátria – Desh – responde ao chamado.

Desh

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