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Arquivo mensal: abril 2014

Sapatos não são objetos estranhos à cena. Dois dos maiores exemplos na história dos nossos palcos foram Dois Perdidos Numa Noite Suja, de Plínio Marcos, e Dorotéia, de Nelson Rodrigues, que exploram, cada um a sua maneira, não apenas o objeto enquanto tema, mas as capacidades de representação e referência das artes da cena. Na peça de Plínio Marcos, o calçado é uma metáfora da possibilidade de vida, ele identifica uma imagem social que se faz do indivíduo a partir de como ele se apresenta; enquanto na peça de Nelson Rodrigues, o sapato é uma metonímia de uma personagem, substitui a existência dela, quando colocado em cena junto das demais. Esses dois modos, metáfora e metonímia, tão populares na construção do jogo de representação cênico, se articulam coreograficamente no trabalho que Luiz Fernando Bongiovanni coreografa e dirige com a Mercearia de Ideia, Nossos Sapatos.

A obra se apresenta e se revela a partir dos pés. De um foco no chão, vemos alguém descalçando seus sapatos. Criação de um espaço negativo: onde havia alguém, permanece só seu rastro. Rastro como lembrança e sapatos, a obra se apresenta e se revela a partir da ausência. Processo consciente dos intérpretes-criadores, que se inspiraram no livro Sobre a Morte e o Morrer, de Elisabeth Kübler-Ross para trabalhar o tema (quase lugar-comum), das cinco fases do luto. O risco dos lugares-comuns em arte são os clichês e as frases prontas. Em Dança Contemporânea, em que tanto se cobra de inovação, de originalidade, constantemente esperamos dos artistas e de seus trabalhos, consciente ou inconscientemente, o inédito, o único. A resposta da Mercearia de Ideias para a construção de sua singularidade nesse espetáculo vem do próprio projeto do grupo, que parte não apenas da pesquisa e construção da referência, nesse caso baseada numa literatura de apoio, mas também na pesquisa e construção de seu material cênico, baseado em seus intérpretes e nas possibilidades e sugestões de seus corpos e suas histórias para a realização da obra. Tema difícil de corporificar, a ausência. A falta é, em si, um sem-corpo, um não-estar presente. Como colocar no palco o ausente, aquilo que não está (não pode estar) ali? Nossos Sapatos lida preferencialmente com uma ausência tangível em dança: o não estar mais. A falta daquilo que já esteve, a ausência do que antes era companhia.

Na busca por sua tradução dessa sensação, a companhia usa, como recurso, também da palavra. A obra para para vermos e ouvirmos relatos de algumas senhoras. Contam como conheceram seus maridos, casos da vida a dois, e como eles morreram. Não falam de tristeza, mas falam da falta, tal qual a coreografia. Falam daquilo que nem sempre está presente. Antes e depois dessa interrupção, a coreografia também apresenta, a seus modos, em sua linguagem, o tema companhia e falta, num trabalho bastante investido na relação dos corpos individualmente e em conjunto, e nos trabalhos de duos e trios com bailarinos que se ausentam.

A tentativa de garantir a mensagem faz o grupo reforçar, espetacularmente, diversas formas de construção e apresentação do assunto. Não apenas a movimentação, mas também o vídeo projetado, o jogo de luz de Lígia Chaim, que apresenta o palco predominantemente na penumbra, mas o revela (em partes e às vezes) refletindo, na apreensão que temos da cena, a transitoriedade das situações retratadas; e também em toda a concepção visual da cena que tem não apenas uma grande quantidade de pares de sapatos construindo e alterando a cenografia do palco. Espelhos também são usados como elementos cênicos, numa cena de grande associação entre os componentes visuais da obra, na qual bailarinos seguram espelhos que refletem a luz da cena sobre uma bailarina dançando sozinha, numa iluminação ímpar que cria uma aura particular nesse solo, um momento particular de solidão.

Momento particular no sentido de privado, mas também no sentido de pontual. Muito mais do que reportar à solidão que sente aquele que fica, essa cena parece se ligar à figura que parte, presa nessa matéria mista, aquosa e duvidável que a iluminação refletida pelos espelhos cria. Interessante atenção do desenvolvimento da obra, que não escorrega em seu assunto, mesmo ele sendo, de fato, escorregadio. A abstração da ausência é de difícil representação. Como tema, a falta é apresentada – majoritariamente nesse espetáculo – pelos que ficam, não pelos que vão. Os que vão têm suas formas de associação: metáforas e metonímias grudadas nos diversos sapatos, que saem dos pés dos bailarinos tais quais os maridos falecidos saíram das vidas das senhoras no depoimento audiovisual: de repente. E os sapatos são explorados como objetos de cena por diversas outras vezes e formas, não só na manipulação mais esperada de calçar e removê-los dos pés, mas também em jogos e construções, sendo arremessados, procurados, usados para delimitar o caminho sobre o qual uma bailarina se movimenta, só pisando em sapatos; um constante jogo de separar (e às vezes juntar) os pares em que frequentemente algum (alguém) sobra, desparcerado. “Alguém sempre fica sozinho”, uma das senhoras do vídeo já nos adverte.

A realização do tema proposto pela Mercearia depende, sobretudo, do trabalho que seja feito desse lugar-comum de partida, sem que ele se torne um lugar-comum artístico / coreográfico. Nesse intento, os sapatos têm a contribuir bastante com a obra. Em si, são elemento quase cômico, distantes do sóbrio por serem tão mundanos, comuns. Mas é ao trazer essa característica despretensiosa do cotidiano do sentimento da falta, que Bongiovanni consegue estruturar um ponto de vista particular, seu e de seus bailarinos – mas também daquelas senhoras a cujas histórias assistimos – que ultrapassa o lugar comum para ser sincero. Sentimental, dentro do próprio viés que elege, mas que discute, pela cena, pelos sapatos da cena, as faltas que também sentimos na plateia, que também vemos em nossos sapatos.