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Arquivo mensal: janeiro 2014

O Balé da Cidade de São Paulo começa 2014 com uma temporada no Theatro Municipal, num triple bill com Cantares, de Oscar Araiz, Abrupto., de Alex Soares, e Cantata, de Mario Bigonzetti. Nenhum dos três era uma estreia de criação nova. Cantares entrou para a companhia em 1984, mas foi criado dois anos antes para o Ballet du Grand Théâtre de Genève. Cantata, apesar de estar estreando pela companhia nesta temporada, foi criado em 2001 para o Ballet Gulbenkian. E Abrupto. fez parte das estreias de 2013, na temporada que, ao longo do ano, celebrou o aniversário de 45 anos do Balé da Cidade com a remontagem de obras históricas, dentre as quais, Cantares, e com a produção de novas obras, entre elas, Abrupto..

Pela resposta da plateia é perceptível o apreço ao presente programa, interessante de se apresentar em meio às comemorações do aniversário da cidade de São Paulo, com toda a sua referência estrangeira de Cantares e Cantata, porém mais interessante ainda com a presença de Abrupto. entre as obras. Em um ano de grandes estreias, como foi 2013, Abrupto. se destaca pela qualidade do trabalho sugerido e desenvolvido.

A proposta do coreógrafo, a discussão da catarse, da ação impulsiva e dos estados em que ela resulta, cria uma coreografia instável – no sentido do caráter brusco e arriscado da movimentação, quase perigosa. Já ai, uma grande exploração do tema: o impulsivo criando a situação de risco – um passo a mais e seria queda, força a menos e seria acidente.

Com a divisão estrutural básica em dois núcleos, centrados na música trabalhada, a coreografia se desenvolve em alterações de combinações, pequenos grupos e duos, apresentando mais e mais formas e combinações poéticas criativas. A originalidade do criador, não particularmente na escolha do tema, mas na abordagem dele e na sua transformação em espetáculo, preenchem um espaço cênico de conteúdos sensíveis que chegam à plateia apelando às sensações primárias e reações corporais ao risco, à tentativa, à impulsividade, ao abrupto.

A sensibilidade de Alex Soares reverbera nos corpos dos bailarinos, que também colaboraram para a criação da coreografia. Talvez seja esse o lugar de origem da proximidade sentida entre o público e o espetáculo: a proximidade entre os bailarinos e a coreografia. Entregues ao abrupto que chega de diversas direções, os bailarinos são tomados pelo energético dos movimentos que alternam entre o dispersivo e o concentrado, o direcional e abrangente.

Ao final do espetáculo, se antes havia a pergunta quanto a o que acontece após a catarse, encontramos uma resposta que, no entanto, não vem exatamente esclarecer, mas mostrar que não há como dizer o que virá depois. Só arriscando pra saber. Depois dessa atitude abrupta, perdemos o controle. Abrimos o espaço para o outro e sua influência, e soltamos as rédeas, às vezes sendo arremessados, às vezes despencando, às vezes continuando, andando, seguindo. Depois de certas tempestades, mesmo a calmaria tem o fluxo do mar revolto.

Que Alex Soares seja o único coreógrafo brasileiro do programa, e, mais ainda, tenha dançado com o Balé da Cidade, e tenha coreografado tanto para o workshop de novos coreógrafos, como para a companhia principal (Wii Previsto, de 2009), só vem reafirmar a importância do investimento em talentos nossos. O trabalho que o Balé da Cidade desenvolve há anos abrindo espaço para a descoberta desse tipo de talento mostra que deveríamos estar investindo não só no levantamento desses indivíduos, como na continuidade de sua formação e preparação para o preenchimento de funções como a do coreógrafo.

Nesse programa, Alex rouba a noite e os aplausos. Por cima de outra estreia, e mesmo por cima de uma coreografia histórica como Cantares, que um coreógrafo brasileiro fique como o comentário da noite é algo que tem um gosto especial. Um gosto de que não é necessário preferir as companhias e coreografias estrangeiras. Um gosto de que o investimento na Dança Brasileira, mesmo podendo melhorar em muitos níveis e quantidades, tem resultados positivos, deslumbrantes, e que podem ser colocados ao lado de grandes criadores do mundo todo.

Abrupto. compete com a sensibilidade dos melhores espetáculos apresentados por aqui em muito tempo. Se destaca firmemente entre as melhores criações brasileiras de 2013, e aponta um futuro brilhante, e delicioso, para aqueles que se sentam na plateia, e também para seu coreógrafo, para o Balé da Cidade, e para a nossa dança, como um todo.

Se o momento parece de dúvida, e os novos talentos permanecem há tempo demais nas rebarbas das grandes companhias, em divisões específicas, frequentemente menores, de uma vez, abruptamente, somos levados a considerar outros caminhos. Certos apenas da dúvida de seus resultados. Catártico, Abrupto. é um reflexo da nossa produção e incentivos atuais. Vira o jogo. Questiona em sua estética, dentro de sua criação, e vem dai o seu maior valor. Mas vai além. Além do espetáculo e além do palco. Muda percepções e deslumbra, num único movimento, assim tão abrupto(.).

bcsp abrupto

Luis Arrieta comemora 40 anos de carreira com as apresentações de 39155 Mutações na Funarte, em São Paulo. O espetáculo trabalha com a referência à reconhecida A Morte do Cisne, coreografada pela primeira vez por Fokine para Pavlova, em 1905, e retoma um trabalho anterior de Arrieta, também inspirado nesse original. O novo cisne de Arrieta está colocado num ambiente anatomicamente inserido na sala Renné Gumiel da Funarte, sendo a cena um quadrado branco, envolto por um quadrado vermelho cujo linóleo continua para além do quadrado, seguindo os traços de seu contorno para toda a parede e até o teto do espaço.

Presentes na cena, nos cantos do quadrado branco central, dois músicos trabalham a trilha sonora, uma exploração sobre o tema do Cisne do Carnaval dos Animais de Camille Saint Saëns. A ambientação, que explora vastamente efeitos de iluminação, e deixou toda a sala envolta por uma fumaça, constrói uma associação tanto ao retrato tradicional do Lago dos Cisnes e sua névoa, como a um ambiente oculto, que guarda segredos e possibilidades sobre seus habitantes, nesse caso, o cisne em mutação de Arrieta.

A exploração musical trabalha em dois eixos diferentes, um deles partindo mais perceptivelmente do tema do Cisne, numa desconstrução que se mostra bastante interessante para a alimentação da reflexão das mutações propostas; o outro eixo trata mais de uma exploração sonora, ambientação por ruídos, realizada ao vivo com uma grande quantidade de instrumentos e aparelhos, que, em certos momentos, roubam a atenção da micromovimentação proposta por Arrieta.

A plateia é colocada ao longo das quatro arestas do quadrado vermelho, rompendo-se a noção de um palco tradicional, como se o público estivesse adentrando um território, e a proximidade da execução, junto do direcionamento intensificado para a plateia, coloca cada espectador na posição de cúmplice daquilo que é assistido. Arrieta recupera grande parte da movimentação que apresentara em seu duo anterior, Cisnes, de 1990, porém, sem a figura da bailarina que contracenava com ele naquela coreografia, ele se torna figura central da peça, e a indagação proposta ultrapassa os questionamentos sobre as mutações do cisne, para se associar ao criador e questionar, nesses seus 40 anos de carreira, as suas mutações.

Se o Cisne de 1990 apresentava Apollo e a consagração do cisne ao deus, em seu canto de morte, as novas Mutações exploram possibilidades de reconstrução que podem ser atribuídas a esse sacramento. Ficando apenas Arrieta em cena, passa a ser questionável a variação deus-cisne desse papel, anteriormente duplo, agora solo, e que, no entanto, se articula num diálogo em suspenso com os dois músicos em cena.

Arrieta volta ao cisne e à metáfora do fim, da morte, para a celebração de seus 40 anos de carreira, como num ciclo de fim e recomeço. Retoma um conteúdo que já havia trabalhado, e morre em cena com ele, para nascer outro, na mutação seguinte, na apresentação seguinte, no espetáculo seguinte, mostrando uma nova face, do cisne-personagem, e do coreógrafo-criador, dentro de suas tantas mutações, que há 40 anos alimentam a Dança.

arrieta