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Arquivo mensal: outubro 2013

A ideia da quarta parede é uma ideia de separação entre público e artista. O palco tradicional, em seu formato de caixa, se “fecha” nos fundos e nos lados, e se “abre” pela frente, a boca de cena. O distanciamento entre o que acontece pra lá e pra cá dessa linha imaginária é o que faz essa linha ser percebida como uma parede, a quarta do palco. A Quarta Parede é aquilo que separa aqueles que fazem a arte daqueles que a ela assistem, artistas e público; uma estrutura de distanciamento que foi alimentada durante toda a formação da dança cênica, culminando no romantismo e passando a ser questionada pelas vanguardas. Desse momento em diante, uma quantidade notável de movimentos artísticos ao longo da história propôs diversas formas de rompimento dessa separação, sugerindo necessidades de proximidade, de encontro entre a cena e a plateia.

Grande parte dessas propostas se baseou nas alterações da cisão do espaço físico, resolvendo o distanciamento pela proximidade dos corpos que se movem no palco e dos corpos que a eles assistem.  Seja nas tentativas de apresentar em novos espaços, seja em novas estéticas de contato, ou em manipulações do espaço do teatro tradicional. Porém, pouco se resolve em questões de distância se esses corpos, mesmo que juntos, até grudados, não conversarem. E o teatro (a sala de espetáculo, mas também a rua, a praça, a arena – os locais de apresentação) é por excelência um lugar de conversa entre artistas e seus públicos. O espetáculo, ao ser apresentado, é um convite para a compreensão, para o entendimento, e, portanto, para uma forma de conversa. Forma particular e distinta, por exemplo, do padrão de conversa oral, com revezamento de turnos, em que uma das partes fala à outra, na sequência a outra fala à uma, e assim por diante. Na cena, a estrutura segue diretrizes menos replicáveis, pois a plateia apreende, mais que responde (pelo menos no que se possa identificar como um mesmo nível) ao que é apresentado. Assim, a cena estrutura uma mediação: existe uma forma de conversa, no nível do entendimento, mas não existe uma equiparidade quanto ao canal e o código utilizados na realização dessa comunicação.

Em dança, não apenas temos a mediação da forma, mas também dos indivíduos, com a conversa entre coreógrafo e plateia sendo igualmente uma relação mediada, diretamente articulada através dos corpos dos bailarinos. O que quer que seja que o coreógrafo deseja transmitir para o público, ele o fará indiretamente, não através de seu próprio corpo, mas através dos corpos daqueles quer realizam a sua obra. É necessário que ele trabalhe para organizar e desenvolver sua obra através de outros indivíduos – claramente, este é o caso de composições coreográficas tradicionais, e é importante lembrar que muitas outras formas de trabalho em dança buscaram novas articulações para essa construção, seja através de intérpretes-criadores, ou da ausência de um coreógrafo, com ou sem um diretor, ou mesmo em trabalhos de improvisação. Porém, nenhuma dessas formas consegue completamente abandonar todos os elementos que formam o espetáculo de dança e que vão além das relações de coreógrafo e bailarinos, de forma que, com o acúmulo dos elementos formadores do espetáculo, e sobretudo com o nivelamento da percepção (o intérprete comunica dançando, a plateia compreende pensando) existirá sempre uma forma de contato mediado.

Mas essa forma de contato, mesmo que indireta, não deveria ser tida como uma diminuição de contato, e sim como uma particularidade dessa comunicação. O espetáculo-convite-à-conversa é então um chamado, uma proposta a ser aceita pelo público, requisitado pelo artista para a comunicação. Estejam lado a lado ou separados pela distinção palco-plateia, há na obra de arte uma imanência comunicativa. A Quarta Parede, marca regular desse distanciamento, degrau que separa artistas e públicos, é muito mais uma cerca. Ela existe, posto que os níveis de comunicação são diferenciados, do lado de lá ou do lado de cá, mas não isola as partes, não tapa seus corpos, não cala suas vozes, não impede a conversa. Nem mesmo impede que sejam percebidos. Enviesa, demanda uma forma de contorno – uma disponibilidade – do público, para transpor esse distanciamento e propor a continuidade da conversa. Tal qual uma cerca, que permite que se veja o outro lado, mas com certas interferências. Uma cerca, mas que pode ser contornada, escalada, pulada. Uma particularidade, mas não um impedimento. No palco, os bailarinos dançam para a plateia, e, em muitas formas, pela plateia, com a plateia. Acerca da Quarta Parede, “parede” talvez não seja o melhor dos termos. Entender Dança, aceitar fazer parte da conversa entre esses artistas, a cada espetáculo, é ir além da quarta parede.